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Rafael Pitanguy: O poder ultrajovem

iStock/ BrianAJackson

Aqui em Cannes, entre inúmeras palestras e apresentações sobre inteligência artificial, blockchain, machine learning, deep learning ou sobre a data driven age, em meio ao momento de uma das maiores transformações na história da comunicação e do tsunami de informações, me lembrei muito de um conto bem curtinho e despretensioso do Drummond.

Tem uma página e foi escrito em 1972, chama-se O Poder Ultrajovem. No texto, o poeta observa pai e filha na mesa ao lado num restaurante. Ela tem quatro anos e assim que se senta diz sem olhar o cardápio: “Quero lasanha”. O pai se esquiva, conversa com o garçom, enquanto ela segue: “Quero lasanha”. O pai acaba pedindo uma fritada de camarões, que os dois dividem, felizes. Ao terminar, ela agradece e diz: “Agora a lasanha”. O restaurante, que acompanhava a cena, aplaude. Ao encerrar a crônica, Drummond traz uma frase que fazia todo o sentido ali em 1972 num pequeno restaurante e que, me parece, também faz aqui em 2018 no gigantesco festival de Cannes: “Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem”.

Aqui, quando o assunto são novas tecnologias e processos, vejo um excesso absoluto de convicção sobre o que vai ser o futuro. Como se realmente fosse o tempo do “poder ultrajovem”. Me parece haver bem pouco espaço para as dúvidas. Por mais que tudo seja novo, para todos. Não tenho ideia se mesmo depois de tão convicta a menina fofa do conto aguentou comer toda a lasanha. Talvez ela tenha desistido e pedido uma sobremesa. O imprevisível precisa ser abordado, considerado, dito. E isso não é pessimismo, pelo contrário.

Hoje numa palestra do Google, já era tempo, a certeza deu um pouco de espaço para a construção. “Creatives can invent the future”. Até porque, como foi apresentado, tudo foi inventado, criado, imaginado. As fronteiras, as leis, a música. Por isso, tudo pode ser re-inventado, re-criado, re-imaginado. É das dúvidas e das contestações que nascem as mudanças e as evoluções. Vamos celebrar as incertezas e tudo de bonito e incrível que nasce delas.

Rafael Pitanguy é VP de criação da Y&R

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