Boechat sai do ar

É preciso, eu entendo, crer num lugar onde vamos nos juntar, desta vez para sempre, sem medo da morte

Eu entendo a razão para a humanidade ter criado Deus. Entendo porque as religiões sempre destinam um lugar para aqueles que morreram. Um lugar onde estejam felizes, sem medos, em permanente paz. Faz bem imaginar que um dia nos reuniremos todos e possamos viver em estado de amor. Entendo porque também quero crer. Realmente espero que aos bons seja dado o poder da reunião eterna, seja na presença do Grande Pai ou de suas manifestações mais agradáveis, como o céu, a música e (por que não?) o leite, o mel e tudo aquilo que faz bem.

No paraíso, seja qual for o CEP, deve ter leitõezinhos à pururuca, cuscuz paulista, sanduíche de mortadela e pudim de leite. E muita manga, bananas de todos os tipos, laranjas sem casca e uvas. Muitas uvas. Uvas, ao natural ou em forma do mais aromático dos vinhos, que escorrerão por vales entre montanhas nas florestas.

Entendo quem não aceita a ideia que as pessoas que amamos vão embora de verdade, vivendo somente em nós, sem algum tipo de recompensa pelo que fizeram de bem. É preciso, eu entendo, crer num lugar onde vamos nos juntar, desta vez para sempre, sem medo da morte. Sem o risco do fim, sem ser preciso ter piedade de ninguém, pois ninguém mais precisará merecer piedade. Eu acho que nesse lugar haverá bichos. Bichos de se olhar e de se viver com eles.

Sem dúvida haverá cachorros e gatos e todos eles terão um dono que os ame. Eu realmente entendo que a gente precisa ter fé em que esse lugar exista. Pois nos acalma um pouco imaginar que aqueles que amamos foram para lá depois que morreram. E que nos esperam. Eu sinto isso cada vez que morre alguém e me chega uma desoladora tristeza. Nesse lugar, entre muitas outras coisas maravilhosas, os helicópteros não caem jamais.

A morte do Boechat, no mais maluco dos desastres, serviu para que todos nós refletíssemos sobre os nossos ofícios e como lidamos com eles. Isto porque o Boechat foi um exemplo de profissional. Ele lutou a vida inteira para fazer o melhor. Fez tudo o que podia para que seu trabalho tivesse alguma utilidade para os outros. E, sendo um dos melhores entre os melhores, era o mais humilde dos grandes. Numa profissão de pavões, de criaturas solares, arrogantes em sua importância, tinha uma humildade quase franciscana, se compararmos com muitos de seus colegas.

Tinha também um incrível bom humor afetuoso, próprio de quem gosta de estar com outras pessoas. Humildade até mesmo de reconhecer seus erros e conviver numa boa com quem não pensava como ele. O que mais me impressionou nos muitos depoimentos sobre ele que vi e ouvi, um traço da personalidade dele veio muito claramente: era um homem bom.

A importância do Boechat foi tanta que sua morte quebrou inúmeros tabus e a comoção geral provocou acontecimentos inéditos. A Globo, por exemplo, colocou no ar imagens geradas pela Band com logotipo e tudo, citando nominalmente o nome da concorrente e de seus profissionais.

O presidente Bolsonaro fez uma fala carinhosa e comovente, apontando inclusive que Boechat muitas vezes o criticou duramente, a ele e a seu governo. Muito mais do que um pronunciamento oficial, ele se permitiu reconhecer o valor do jornalista e sobretudo da pessoa, deixando transparecer emoção e sinceridade. A Rádio Bandnews saiu do ar, com seus apresentadores reconhecendo que não havia possibilidade de se falar nada.

A Globo esperou a Band noticiar o desastre para, por sua vez, passar a informação. Uma providência cuidadosa para com a família, que precisava ser avisada com o respeito necessário. Boechat mereceu tudo isso.

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira.luvi@gmail.com)

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