Brindes de Natal

A Sadia mandava às pessoas mais importantes um peru congelado. Recebê-lo era, no mínimo, uma prova de prestígio

Não estou reclamando nem insinuando nada. Mas cada vez menos as empresas estão distribuindo brindes de Natal para seus clientes. Não estou falando de propinas de milhares de reais, mas de bobagens tipo canetinhas e agendas de papel. Ou até mesmo panetones, perfuminhos ou caixas de chocolate. Bobagens que eram enviadas geralmente agradecendo o bom relacionamento durante o ano. A Sadia, por exemplo, mandava às pessoas mais importantes um peru congelado. Recebê-lo era, no mínimo, uma prova de prestígio. Exatamente sobre o peru da Sadia, eu me lembrei de uma história que envolve o Walter Zagari 

e um peru. Uma molecagem sofisticadíssima que coloca o Walter na categoria de um dos meus ídolos. Quando eu crescer quero ser parecido, se a mim me for dado talento e imaginação. Foi assim: o Walter era diretor do SBT e estava no estacionamento da Vila Guilherme, juntamente com o Guilherme Stoliar, seu chefe, quando chegou um portador da Sadia com o tradicional brinde de Natal da empresa, o magnífico peru congelado.

Eram dois perus nas mãos do rapaz. Um para o Walter e o outro para o Dalto Machado, da Bandeirantes. Devia ter sido engano de logística, pois é natural que os perus do SBT fossem entregues todos ao mesmo tempo. Mas o Walter achou que era uma excelente oportunidade de armar uma brincadeira. Além do que achou uma profunda injustiça o peru dele ter chegado antes que o do Guilherme, que afinal era chefe. Sem que Stoliar percebesse, Walter conseguiu provar para o rapaz da Sadia que era primo do Dalto e estava indo exatamente para a casa dele, dessa forma poderia entregar o peru, poupando o rapaz dessa viagem até o Morumbi. Escondeu no bolso o cartão assinado pelo Milton Ivanov, presidente da Sadia, desejando Feliz Natal para o Dalto e entregou solenemente o peru para o Guilherme Stoliar que, distraído, não percebeu a manobra. Até aí tudo bem, Walter ganhou seu peru, Guilherme o dele e ninguém jamais iria ficar sabendo que o Dalto não teria o seu, já que ninguém iria imaginar que um diretor do SBT seria capaz de desviar o peru alheio. Só que o Walter não ficou satisfeito com meia sacanagem. Achou que poderia melhorar, tornar a coisa mais sofisticada, digamos assim. Dia seguinte foi ao mercado (o que não se faz por uma putaria!), comprou um peru vivo, colocou num engradado e mandou entregar no escritório do Dalto, acompanhado do cartão original assinado pelo Ivanov. Para melhorar, providenciou que a entrega chegasse à tardinha, quase que no fim do expediente, o que significou que o peru chegou depois que o Dalto havia saído e teve de ser hospedado no banheiro do escritório. Claro que passou a noite grugulhando (obrigado Houaiss!), para desespero de todos os vizinhos. Dia seguinte, ao chegar no trabalho, Dalto achou muito estranho que a Sadia, cuja especialidade é exatamente transformar peru vivo em peru congelado, tivesse lhe enviado como presente a matéria–prima. Na Bandeirantes teve gente sugerindo um milagre de Natal, ou até mesmo uma ideia promocional para provar que o peru da Sadia era fresco mesmo.

No meio de profundas discussões, a secretaria resolveu telefonar para Sadia para esclarecer. Agora vocês vejam a surpresa do departamento de marketing da Sadia quando descobriu que o peru, saído da fábrica devidamente morto, congelado e temperado, estava vivo e aprontando um esporro na Bandeirantes. O entregador foi chamado e garantiu que os dois perus tinham sido entregues depenados, gelados e quietos, não havendo nenhuma possibilidade de engano. Já tinha gente se benzendo e querendo chamar um padre quando, prosseguindo nas investigações, se soube que o peru do Dalto não foi entregue nas mãos dele, mas pelo primo dele, um senhor muito distinto que é do SBT. Aí o Milton Ivanov descobriu o culpado. Mas não teve alternativa: teve de mandar retirar o peru vivo, que a esta altura já tinha nome e era uma atração no chiqueiro armado no banheiro da Bandeirantes, e trocou por um irmão dele, em estado pré-forno, como deve ser um presente decente.

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira@grupomesa.com.br)

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