Criatividade orienta o senhor Jovem Pan

Livro Ninguém faz sucesso sozinho conta a história de A.A.A. de Carvalho, o Tuta

Jornalista profissional desde 1949 após encerrar o curso científico, Antonio Augusto Amaral de Carvalho, o Tuta, é figura emblemática dos meios rádio e televisão e testemunha ocular dos principais acontecimentos do mercado de comunicação nos últimos 60 anos. Aos 78 anos, comanda a operação da Rádio Jovem Pan AM (Amplitude Modulada), rede que tem 400 profissionais no seu staff e que contabiliza faturamento anual próximo dos R$ 45 milhões, 100% com venda de espaços de publicidade.

As histórias de Tuta estão impressas no livro “Ninguém faz sucesso sozinho. Bastidores de ouro da TV Record e da Jovem Pan”, cujo lançamento é nesta segunda-feira (21), em São Paulo. Ele fez gravações da sua trajetória profissional em 2007, organizadas pelo jornalista José Nêumanne Pinto. “Ele não queria, depois aceitou, mas só começou o trabalho no final de 2008”, comenta Tuta. O livro é dedicado à Margarida Leopoldo e Silva de Carvalho, a Margot, mulher de Tuta.

Apaixonado pelo que faz, o “Senhor Jovem Pan” acredita que a criatividade é o seu principal elemento para conduzir a emissora, com apoio do braço direito, o repórter Wanderley Nogueira, e também o conjunto de atividades que exerceu, primeiro na Rádio Panamericana, criada por seu pai, Paulo Machado de Carvalho, que empresta nome do estádio do Pacaembu, em São Paulo, e que chefiou as delegações brasileiras nas Copas  do Mundo de 1958 e 1962, e depois na TV Record Canal 7, também  de propriedade da sua família.

A primeira fase de Tuta no rádio teve duração de pouco mais de três anos. As ondas do rádio contagiavam os ouvintes com seus programas de auditório, que competiam com os orçamentos de mídia dos anunciantes em revistas e jornais. A emissora era dedicada aos esportes. Mas a televisão começava a interferir no comportamento dos barões da mídia. Assis Chateaubriand, por exemplo, inaugurou a TV Tupi  no início da década de 50, atitude que foi benchmark para os concorrentes. A TV Record foi estruturada em 1953. Tuta deixou o rádio e migrou para o universo da imagem. Estudou a fundo os meandros do novo canal de mídia, da parte técnica às transmissões, da programação à cenografia. Sete meses depois, quando o sinal entrou no ar, já estava craque no assunto.

“Todo mundo aprendeu na marra”, relembra Tuta, que tem orgulho de ser autodidata. Suas primeiras atribuições foram relacionadas às externas da emissora, principalmente de futebol. Enfatiza que usava o maior número de câmeras possível, tudo para garantir imagens “diferenciadas” para os espectadores. No espaço do café do Pacaembu, desenvolveu uma ação que fez a diferença na era pré-videoteipe, sistema que só foi lançado no País em 1958. Uma equipe gravava em película os principais lances de um jogo, revelava rapidamente as imagens em um balde improvisado, sem fixador, e a Record exibia as imagens em uma tela no intervalo. “Era uma sensação, mesmo com as manchas inevitáveis nas imagens. Não tínhamos tempo de mandar revelar nos padrões do cinema. O importante é que as pessoas aplaudiam o ineditismo da iniciativa”, diz Tuta. Para ter imagens do público, Tuta colocou uma câmera voltada para a torcida. O profissional encarregado pela captação gostava muito de futebol e não conseguia resultado satisfatório, pois não tirava o olho da partida. Como solução,  Tuta contratou um câmera que odiava futebol.

O volume de câmeras para captar futebol, um total de 10, era para época uma inovação não ultrapassada nem mesmo nos dias de hoje. Crítico da exclusividade da Rede Globo, Tuta crê que esse modelo limita a qualidade da transmissão e do acesso do público a esse conteúdo.

“Éramos mais ousados. Com tanta tecnologia à disposição, acho que são poucas câmeras usadas hoje em dia, atribuo essa limitação ao monopólio. Com concorrência, o leque fica mais aberto. Naquela época, tínhamos uma série de truques, como o de colar fitas com imagens. Era possível, mas e a diferença do áudio? Usávamos a criatividade para sobrepor essa dificuldade que produzia um espaço de sincronização”, observa Tuta sem, porém, reconhecer os méritos da Globo. “É uma emissora fantástica. Sua qualidade é destacada. O problema é que todo mundo quer copiá-la e esse é o principal erro. Se ela tem um share de 30%, existe uma margem de 70% para buscar. As demais emissoras deveriam usar esse critério, mas querem apenas imitá-la. A Globo teve a sorte de ter o Boni, um obstinado”, ele acrescentou, lembrando ainda que no dia 1º de julho de 1956 a Record fez a primeira transmissão simultânea de futebol para São Paulo e Rio de Janeiro. Com patrocínio da Philco, exibiu o jogo Brasil e Itália.

Na Record Tuta foi diretor de de TV de programas como “Hebe”, “Família Trapo”, “Esta noite se improvisa”, “O fino da Bossa”, “Corte Rayol show”, “Dia D”, “Show do dia 7”, “Alianças para o sucesso” e “Bossaudades”, só para citar alguns. O formato do “Hebe” é usado até hoje, mas o de “Família Trapo”, originalmente com Ronald Golias, não. Ele lamenta que exemplos como a “A grande família” tenham roteiros que, na sua expressão, não são relevantes. “Falta conteúdo mais consistente”, resume, lembrando que a Record tinha na conceituação das suas atrações nomes como Manoel Carlos, Nilton Travesso e Raul Duarte.

A publicidade foi aliada de primeira hora da Record e das demais emissoras. Tuta lembra que a maioria dos breaks assim que emissora iniciou suas transmissões eram de pelo menos 45 minutos de duração, algo próximo do que os canais de televendas fazem atualmente. Muitos desses infomerciais eram ao vivo e outros gravados com a sofisticação do cinema. “Por outro lado, ainda sofríamos com buracos. Tínhamos que ter slides para colocar no ar por não termos programas ou comerciais suficientes para abastecer a grade”, comenta.

A permanência de Tuta na TV Record durou até o ano de 1966, antes dos festivais musicais que celebrizaram a emissora. Assumiu a direção da Rádio Panamericana AM nesse mesmo ano e, por sugestão do pai, mudou o nome dois anos depois para Jovem Pan, seguindo tendência da época que usava o termo jovem para tudo, como a Jovem Guarda. Tuta, em 1973, comprou a participação dos irmãos Paulo Machado de Carvalho Filho e Erasmo Alfredo Amaral de Carvalho e ficou como único acionista da Jovem Pan. Seu filho, Tutinha, comanda a Jovem Pan FM.

“Rádio requer agilidade e é isso que quero na Jovem Pan. Muita gente me considera chato, mas cuido pessoalmemnte de tudo. Estou sempre ligado, 24 horas por dia. Se a hora não for assinalada, ligo para cobrar do apresentador. O ouvinte do AM exige serviço. Tirei essa prova quando comprei da Globo a estação com sinal AM em Brasília. Todo mundo me chamou de louco porque os investimentos eram altos, do transmissor, espaço físico, equipamentos à equipe. Transmitimos ao vivo, sem intervalos comerciais, a CPI do Mensalão. O resultado é que conquistamos a população da capital”, comentou Tuta.

O futebol é uma das bases da programação da Jovem Pan. Mas na Copa de 2006 Tuta não quis pagar os US$ 300 mil para garantir lugar na transmissão direta da Alemanha. “Os jogos eram de madrugada. Ninguém ia dar bola para o rádio. A TV era a melhor opção. O que fiz? Organizei uma mesa-redonda com técnicos do naipe do Vanderlei Luxemburgo e sugeri ao meu ouvinte que visse o jogo na TV e ouvisse a Jovem Pan. Deu tão certo que vendemos todas as cotas de patrocínio”, relembra.

Mais tarde criou a TV Jovem Pan em sociedade com João Carlos Di Gênio. Adquiriu terreno na Barra Funda, onde instalou torre de transmissão, estúdios e escritório. “Compramos 48 câmeras para fazer um jornalismo de primeira. Não adiantava ir ao aeroporto para cobrir chegada ou saída de personalidades. A todo momento há embarque de pessoas importantes. Uma câmera tinha que morrer lá, assim como no Palácio do Governo e na Assembleia Legislativa”. A TV Jovem Pan motivou briga com Di Gênio e a ruptura da sociedade. “Ele achou que tinha superfaturamento, nunca entendi isso. Os investimentos eram em qualidade, mas ele desconfiou”, disse Tuta, lembrando que a TV Jovem Pan e instalações foram vendidas para o Bispo Macedo. O líder da Igreja Universal também adquiriu o controle da TV Record em 1989 por cerca de R$ 45 milhões. “Os incêndios acabaram com as finanças da Record, pois as receitas não foram suficientes para pagar os empréstimos. O que o Bispo pagou serviu para cobrir dívidas”, finalizou.

por Paulo Macedo

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