Cuidado comigo!

Grande e desajeitado, falador compulsivo, tem horas que chego às raias da perfeição na categoria bola fora

Eu sou um desastrado da pior espécie. Tenho infinita inveja daquelas pessoas que conseguem agir e falar sem dar nenhum fora ou, como diria Fernando Pessoa, vivem sem “tropeçar nas etiquetas”. Eu não consigo. Grande e desajeitado, falador compulsivo, tem horas que chego às raias da perfeição dentro da categoria bola fora. Fui a um restaurante onde sou conhecido e bem tratado. O Alcaparra. Todo mundo é (acho eu) meu amigo e consigo ter aquela intimidade deliciosa de botequim. Acostumado a brincar com todos os garçons, tive um mimoso diálogo com um deles, que quase me matou de vergonha.

Ocorre que eu entrei no Alcaparra lá pelas 8 da noite, para um uísque antes de ir pra casa, como todo cidadão decente o faz, principalmente numa noite de verão carioca. Foi logo após me aboletar numa mesa do bar que um dos garçons, evidentemente para fazer graça, chegou-se para mim e perguntou: - E aí, doutor Lula, uma taça de champanhe? E o doutor Lula, grosso que só ele, resolveu ser ainda mais brincalhão e respondeu, quase aos gritos, como todo imbecil faz em lugares públicos: - Você disse champanhe? Está pensando que eu sou veado pra tomar champanhe em botequim nesta hora da noite?

Até aí tudo bem, apenas mais um diálogo sem sentido trocado entre um freguês e seu garçom. Mas na mesa do lado havia um casalzinho que romanticamente bebericava sua tacinha de champanhe com aquela cara de besta que as pessoas fazem quando acham que estão sendo finas. A história poderia ter acabado por aqui. Claro que eles ouviram, claro que eu fiquei desconcertado, claro que baixou um silêncio constrangedor. Mas eu poderia rir. Poderia até pedir um champanhe e beber, fingindo que era brincadeirinha. Qualquer coisa. Menos me virar para o casal e pedir desculpas e na mesura que tentava ser engraçada ter derrubado o balde do champanhe em cima da moça. E mais: ajudando a levantar o tripé do balde, puxei a toalha, jogando as taças no chão, junto com os canapês. Uma zona que mobilizou toda a equipe do restaurante para limpar, enxugar, trocar a mesa, o sofá e os fregueses. E eu ainda não tinha bebido.

Uma vez, em Carcassone, levei a minha mulher a um romântico jantar num silencioso restaurante que parecia saído de um filme musical da Metro. Botei terninho e gravata, pois nessas horas eu acho que uniforme de turista (tênis, camiseta e suéter) tira qualquer romantismo, tomei um banhinho caprichado e me preparei para uma noite inesquecível. E foi. Pedi champanhe enquanto escolhia o vinho (é, eu sei que é coisa de veado, mas tem horas que pega bem), discuti o cardápio em francês (ninguém entendeu nada, mas foi bonitinho) e me comportei como um marido da melhor qualidade. Até que... Enquanto esperávamos a entrada, passei os olhos pelo salão. Havia mais umas 20 mesas com casais como nós, num ambiente de cenário. Luzes de vela e tochas criavam uma iluminação intimista e acolhedora. A música de um piano envolvia a todos. Os outros sons eram apenas sussurros, entrecortados por alguns tinires de louça e cristais. Um luxo civilizado. Ocorre que na parede ao meu lado havia um interruptor. E eu sofro de uma curiosidade mórbida, uma atração pela merda. E falando docemente com minha mulher, liguei o interruptor.

Luzes se acenderam. A fonte no meio do salão, que continha apenas umas flores numa fina lâmina de água e algumas velas boiavam, começou a jorrar e o ambiente se transformou numa churrascaria de beira de estrada. Só faltou palhaço para divertir as crianças e um tecladista com uma bateria eletrônica. Ficou tudo claro, feio e barulhento. Claro que eu desliguei o interruptor imediatamente, mas o mal já estava feito. Nada volta ao normal depois de uma cortada dessas. Os respingos apagaram algumas velas, gente se levantou de chofre, houve geral consternação. E eu, tentando fingir que não tinha nada a ver com aquilo, ainda tive de ouvir uma tremenda bronca da dona do restaurante, que quase morreu de susto, pois àquela hora estava entrando no salão com um cassoulet. Não sei se depois de contar essas coisas alguém ainda terá disposição para me chamar para um fim de semana em Itaipava. Mas, pelo menos, que esse artigo sirva como pedido público de desculpas para os queridos amigos que insistem para que eu fique na casa deles e nem sempre entendem por que eu prefiro ficar numa pousada ou hotel.

Lula Vieira é publicitário, diretor da Mesa Consultoria de Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira@grupomesa.com.br)

 

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