Cultura sob ameaça

Em entrevista coletiva, o presidente da Petrobras afirmou que a empresa abandonará os patrocínios e investirá em estudantes pobres. Gostaria de saber o que uma coisa tem a ver coma outra. Marcas líderes no mundo inteiro fazem generosas doações a causas nobres o tempo todo.

Nem por isso deixam de associar a imagem de seus negócios a eventos voltados a públicos de seu interesse. Tentar estabelecer uma contradição entre investimentos em marketing e contribuição social é pura maledicência.

Aliás, maledicência que é uma das marcas deste governo que, desde a campanha eleitoral, aponta a cultura como um dos seus principais inimigos. Não por acaso, paira no ar um clima de vingança contra artistas, produtores e publicitários que manifestaram publicamente seu repúdio às ideias retrógradas contidas no discurso do candidato vencedor.

A continuar sendo pautada pela mesquinhez irresponsável, a política pública na gestão de recursos vai fatalmente penalizar a oferta cultural aos brasileiros. Só mesmo a cegueira causada pela mediocridade de pensamento pode negar a importância de valorizar as artes e os espetáculos na formação de um povo mentalmente saudável.

De muito pouco servirão os aportes da Petrobras aos “estudantes pobres” se o futuro desses jovens estiver apontando para um país intelectualmente deserto.

Se alguns decisores que hoje ocupam cargos estratégicos estudassem um pouquinho mais, abdicando de suas vendas ideológicas, descobririam que não há país que tenha se tornado uma potência tecnológica renunciando ao conhecimento humanístico Chega a ser bizarro imaginar que gente escolhida para a gestão do país não consiga fechar a sinapse que liga o fortalecimento de um conceito de nação à permanente valorização da cultura.

Tradicionalmente, marcas de empresas estatais e estatais de economia mista brasileiras juntam suas marcas à iniciativas culturais e esportivas de interesse público. Não é nenhum favor. Sempre tiveram ganhos significativos para o marketing das suas marcas, na medida em que essas iniciativas, alavancadas pelos investimentos, alcançam o melhor resultado no talento envolvido. O retorno para a imagem das marcas é evidente.

É bisonho achar que o Brasil tenha que escolher entre apoiar investigação científica, alfabetização ou projetos artísticos-culturais, por exemplo, como se tudo não fosse parte essencial da construção de um país.

Portanto, nem que a Petrobras fosse uma empresa sob gestão exclusivamente privada caberia afirmação tão simplória como a proferida por seu presidente.

Aliás, não seria aceitável provinda de qualquer presidente de qualquer empresa. Está mais do que na hora do governo parar de administrar sob o lema da futrica e das tretas personalizadas e se mostrar adulto, consciente da missão que carrega.

Caso contrário, estará condenando o país a um pavoroso esvaziamento de significado, ao achincalhar todos os legados culturais que permitiram que nos olhássemos como nação. Alguém, por favor, assopre nos ouvidos certos que com isso não se brinca.

Stalimir Vieira é diretor da Base Marketing (stalimircom@gmail.com)

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