Duplo testamento

“Pouco tenho, devo muito, o resto fica para os pobres”. François Rabelais

No ano de 1971, Toquinho e Vinicius, em Testamento, advertiam: “Você que só ganha pra juntar, O que é que há, diz para mim, o que é que há?”. Não havia absolutamente nada que não fossem ganância e ambições desmedidas. Mas, assim era a vida, assim era o mundo. E aí veio a digisfera... E na música o aviso ou advertência, “Por cima uma laje, embaixo a escuridão, é fogo, irmão! É fogo, irmão!”.

Hoje temos duas heranças ou testamento se é que acreditamos que o que temos nos pertence. Se é que acreditamos que nossa eventual riqueza é produto de nossas virtudes e competências ou quase casualidade das circunstâncias. Se somos agentes, ou meios e mulas, a quem a sorte e o destino confiaram missões específicas. Tipo, Garcia! Eu acho que faço parte mais da segunda corrente. A dos que acreditam que somos meros portadores. Que nossos eventuais e privilegiados cérebros têm tanto valor quanto as barrigas de aluguel. Que o que produzem não nos pertence. E, assim, encaro de forma irrelevante e despropositada o tal do direito autoral...

Mas voltemos ao segundo testamento ou herança. Tudo o que temos produzido e depositado na digisfera. Internet e redes sociais, caminhadas pelo Google, pelas lojas virtuais, pela Wikipédia, pelas estrelas e pelo universo. O que vai acontecer com tantos bytes mais seus bits? Vez por outra a notícia da morte de um querido amigo que foi descansar supostamente para sempre. Seus outros 20, 50 ou 5 mil amigos, por exemplo, do “Feice” não ficam sabendo. Sua página continua. Suas fotos, registros, emoções, sentimentos, palavras e comentários. Durante dois ou três anos muitos continuam manifestando-se em seus aniversários, desejando, ao finado, “muitos anos de vida”. Tudo isso é muito novo, mas, agora fico sabendo, vem sendo tratado e orientado e disciplinado pelas principais plataformas. Outro dia, Tim Herrera, do New York Times, foi atrás do assunto e trouxe relevantes informações. Comentários esses traduzidos por Terezinha Martino e publicados pelo Estadão.

Segundo Tim, todos os serviços online e redes sociais têm suas regras. Mas, pouco e mal divulgadas, não são seguidas pela maioria das pessoas. E recomenda, “nos últimos 20 anos, muitas pessoas trocaram o real pelo digital; espalharam-se, numa boa, pela internet abrindo contas em diferentes sites e portais”. Suas fotos, às centenas ou milhares, vagueiam pela digital quase que como almas perdidas... Assim, jamais se esqueça de fazer um testamento no e para o Digital. Específico e claro. Segundo Tim, no “Feice”, de verdade “a rede social do mundo”, você pode designar, em vida, uma pessoa para cuidar de seu perfil pós-partida. Essa pessoa pode mudar a foto e fazer posts específicos. Mas seu “testamentário” jamais terá acesso às suas mensagens. Ou seja, jamais poderá modificá-las e nem mesmo deletá-las.

No Instagram tudo o que pode fazer é transformar sua conta num memorial. E, fim! Já para o Twitter, Snapchat, LinkedIn e Tumblr não existe nem testamentário e muito menos sucessor. O máximo que se pode fazer é deletar o usuário; e para o Twitter e Snapchat, mediante o fornecimento de um atestado de óbito. Já o Google, segundo Tim, é mais compreensivo e generoso. Até 10 pessoas podem cuidar da conta do falecido, uma espécie de conselho de família e amigos, ou curadoria pós-morte. Recomenda calma e sensibilidade na decisão a ser tomada. E termina, recomendando todos os cuidados ao confiar suas senhas a uma pessoa de sua verdadeira, total e infinita confiança; claro, se existir. Se para Toquinho e Vinicius: “pois é amigo, como se dizia antigamente, o buraco é mais embaixo”, agora o buraco, além de embaixo, é em cima e nas nuvens... E se fazer testamento o assustava e causava desconfortos, agora são dois. Ou nenhum; caso você tenha incorporado para sempre e em sua vida o botão F...-.

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