Falta “sentido” ao presidente

A imagem do presidente é péssima, sua popularidade é uma das mais baixas para um primeiro mandatário já registradas. E a comunicação do governo? Normal. Até agora, pelo menos, não vi nenhum anúncio institucional, de utilidade pública ou com foco no mercado que possa ser minimamente responsabilizado pela percepção negativa da cúpula governamental.

As agências que atendem a Secom, os ministérios e as empresas públicas parecem cumprir, profissionalmente, a sua parte. Mesmo quando trataram ou tratam de temas polêmicos como as reformas, não notei nenhum clamor de reprovação. Tampouco percebo dúvidas ou suspeitas sobre aquilo que é anunciado.

Diferentemente de Lula, cujo governo era tão apreciado quanto o próprio presidente; e de Dilma, cujo governo era tão criticado quanto a própria presidente; agora convivem no imaginário da população um governo melhor do que o anterior e um presidente pior do que todos. Seria uma deficiência do marketing pessoal de Temer? Seu marqueteiro é do ramo e tem experiência.

O quanto estará padecendo na tentativa de convencer seu cliente a fazer aquilo que lhe parece certo é coisa de se pensar. Eu prefiro, a princípio, dar um voto de confiança aos meus colegas. Afinal, nestes 43 anos na atividade, sei bem o que passei atendendo gente turrona, vaidosa e autossuficiente.

Tenho prestado bastante atenção no comportamento do presidente e buscado identificar um “estilo Temer”. Continuo procurando. Qual era o estilo do Lula? Simples, popular e empolgante. Sempre foi eficaz.
Muita coisa intuída somada a um curso completo de marketing na prática. Perfeito. Já Dilma, que tinha preconceito contra qualquer orientação (uma espécie de Serra do PT), amargou seu amadorismo desastroso na comunicação, passando, exageradamente, por bizarra. Arrisco dizer que até por isso caiu tão facilmente.

E Temer? Quem disse a ele que aqueles
dedinhos dando voltas no ar podem simbolizar alguma coisa positiva? Quem disse a ele que aquele sorrisinho de lábios retraídos, mesclando aparência de deboche e constrangimento, pode angariar simpatia?

Por que não o alertam de que suas tentativas de fazer graça denunciam percepções meio bolorentas da vida? Mas não é só isso.

Embora seja verdade de que se trata de um presidente que tenta costurar frangalhos políticos, é incompreensível que não se recorra a alguma fórmula técnica que o preserve dos vexames das marchas e contramarchas.

É um “produto” difícil, sim, mas ainda pode encontrar uma saída no marketing. Em 1999, o mesmo Duda Mendonça que tornou Lula palatável tirou Fernando De La Rúa da rabeira nas pesquisas e o elegeu presidente da Argentina. O problema do candidato era ser “aburrido” (aborrecido, sem sal).

A solução foi dada num comercial de 20 segundos, em que De La Rúa assumia que se referiam a ele como “aburrido” e perguntava: “será porque no manejo Ferraris mientras el pueblo pasa hambre” (não dirijo Ferraris enquanto o povo passa fome), referindo-se às frivolidades do antecessor, Carlos Menen, famoso por seus carrões). Foi eleito. Seu “defeito” fez sentido.

Stalimir Vieira é diretor da Base Marketing (stalimircom@gmail.com)

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