Glórias passadas

Criamos comercial para o lançamento da bebida chamada Allegro, cuja grande atração era Marcelo Mastroianni

Era tempo de Lintas – Lever International Adversiting, muito mais do que uma house da Lever, um padrão em qualidade de mídia e pesquisa no mundo inteiro. Apesar de alguns vacilos, como me contratar, tinha uma equipe de cobras em todas as áreas, um padrão de qualidade reconhecido em dezenas de países. Pois foi na Lintas que me aconteceu um fato que conto aos mais jovens, com a certeza de que não vão acreditar, até porque, como não havia celulares naquela época, não fiz selfie para encher o saco dos amigos até hoje. O caso é o seguinte. Tínhamos a conta de uma destilaria que atuava no mundo inteiro e por um motivo desconhecido a diretoria internacional gostava de mim, humilde redator brasileiro, dono de um inglês folclórico que exigia tradutor simultâneo, mesmo eu falando gringo. Um dia criamos um comercial para o lançamento de um bebida chamada Allegro, que pretendia ser concorrente do Campari. Se fosse veiculado hoje daria cadeia para todos nós, em qualquer país do mundo.

Para se ter uma ideia, o modelo tomava uma dose da tal bebida e imediatamente o garçom se transformava em anjo, um balé completo saía dançando dentro do bar (que era um cenário montado nos arredores de Roma) e uma pombinha branca pousava sobre a mesa. Um delírio. A grande atração do filme, porém, além da loucura do enredo, era o modelo. Simplesmente Marcelo Mastroianni no auge da fama e juventude. Depois de negociações com o advogado dele (que tinha o delicado nome de dr. Puglia), o mesmo advogado do Felinni, contratamos o astro e demos início à produção, comandada pelo Franklin, da Blow-Up. Como criador, eu fui encarregado de acompanhar a filmagem, dirigida por Michel Salutti, exclusivo da Lintas. Por uma série de compromissos na Itália, viajei antes da equipe e, por confusão do escritório da Lever local, acharam que diretor de criação era diretor da holding e reservaram uma suíte no Ambasciatore Hotel, um palácio no fim da Via Veneto, com direito a elevador privativo e mordomo. E foi lá que cheguei, portando como bagagem uma mochila com duas calças Lee, um tênis, três camisetas e uma camisa social, além de parcas roupas íntimas e uma nécessaire que tinha creme de barbear Bozzano (outro cliente), Gillete, pincel de barba, creme dental Kolynos, uma escova de dente e desodorante Avanço. Matula de envergonhar mochileiro no Peru.

O mordomo encarregado de desfazer minhas malas deve ter achado que eu era excêntrico ou louco. Na sua longeva vida de serviçal nunca tinha visto uma bagagem tão chinfrim. O boato se espalhou pelo hotel e eu percebia pelo rabo de olho os comentários sobre o brasileiro esculhambado que se hospedava na suíte de milhares de liras por dia. Pois bem. Dr. Puglia resolveu promover um jantar com o câmera do filme, Marcelo e eu, para combinarmos horários e detalhes do filme. E foram os três me buscar no hotel. No carro estavam o motorista e Marcelo na frente, Puglia e o fotógafo atrás. Por uma questão de facilidade, quando chegaram no hotel, ficou mais fácil Marcelo descer para me chamar no saguão. Modesto, desceu do carro e foi me procurar. Na sua entrada, o hotel inteiro parou. Silêncio total e absoluta surpresa: o que queria Mastroianni? Fui em direção a ele e saudei: Ciao Marcello! Come estai? Ele me estendeu a mão, simpático, e me conduziu para o carro, parado na porta da frente.

Virei a celebridade do hotel. Ninguém sabia quem era aquele jovenzinho, mal vestido, hospedado na suíte de luxo e a quem Mastroianni veio pessoalmente buscar. Devia ser importantíssimo, o verdadeiro cazzo dele galassie. A mesma coisa aconteceu no restaurante, Angeline que estava no auge entre os ricos e só aceitava reserva com meses de antecedência. Nenhum dos meus companheiros chegou a cogitar a perder tempo com essa frescura. Quando chegamos o maître conseguiu imediatamente uma mesa meio escondida para que ninguém nos incomodasse. Foi um belíssimo jantar, pago por eles, com vinhos mais velhos que eu. Na minha volta, o tratamento já era outro. Signore Vieira passou a ser o fodão, num hotel repleto de fodões. Rico e famoso é uma coisa, mas ser tão importante que Mastroianni vinha buscar pessoalmente é outra coisa. A glória durou até a hora de partir, quando eu, chorando de dor, resolvi ser generoso com a criadagem e distribui uns 150 dólares. Afinal, eu era o famoso Signore Vieira. Achei-me um gastalhão. Foi tomando o táxi que descobri que minha imagem era outra: passei a ser simplesmente um avaro figlio di puttana. Os latinos sabiam de tudo. Sic transit gloria mundi.

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira@grupomesa.com.br)

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