Inspiração: Direto do avião

Rafael Pitanguy narra o momento em que se viu, durante uma viagem, diante de um deadline para escrever sobre inspiração

Agora é domingo à noite, você está num avião. Mas você não é fã de aviões e dormir nunca foi um dos seus grandes talentos. Você tira o sapato, quebra um Dramin no meio pra dormir. É preciso relaxar, é preciso relaxar, grita seu corpo. É preciso dormir, é preciso dormir, esperneia a sua cabeça. Vai dar certo, você acredita. Aí vem a lembrança, como um trem, passando por cima de sonhos, descansos. “Ai, caceta, o texto para o PROPMARK é para amanhã.” Você não pode atrasar. E o maior dos problemas: o “você” aqui no texto, na verdade, sou eu. 

Ao lado, todos dormem. Chamo a aeromoça, peço dois cafés. Os dois cafés se juntam à consciência e dão uma surra no meio Dramin. Pego o computador, cadeira na posição vertical, mesinha devidamente aberta. Hora de começar a escrever. O tema é “inspiração”. O problema é onde buscar inspiração num avião. O jantar não foi inspirador, a revista DutyFree não é das leituras, assim, mais inspiradoras, uma senhora pouco inspirada tenta encontrar o caminho do pequeno e pouco inspirador banheiro do avião. Tento entrar na internet. Mas, aqui em cima não tem. Desculpem a burrice, tomei meio Dramin. É pra valer, é um texto sem Google. Num momento em que nos abastecemos de Data, num momento em que a comunicação passa por uma das suas maiores e mais estimulantes transformações, nos anos da maior pluralidade de linguagens e processos de produção. Num agora que é calcado pelo BI, pelo always on, percebo que meu computador acabou de se transformar numa máquina de escrever.

Assim, com minha Remington 1830, sigo em frente. Acho que eu poderia avançar alguns parágrafos falando da importância e da inspiração gerada pelo esporte. Sempre funciona tão bem. O esporte como inspiração para a disciplina, a resiliência e o senso de equipe. Caso fosse um esporte bem diferente, talvez resolvesse um texto inteiro. Isso, um esporte diferente, jet-ski, por que não? Envolve tempo, precisão, e só é possível mudar a direção dele acelerando. Olha aí, outra analogia ótima com a realidade das agências: mudar de direção acelerando. Mas, sério, andei uma vez de jet-ski, não sou um grande atleta. Agradeço ao jet-ski pelo parágrafo alcançado, mas desisto dele por aqui.

Pego os jornais do passageiro que dorme ao lado. Agora tenho uma máquina de escrever, um Miami Herald e uma Folha de S.Paulo. Começo a folhear as notícias.

Neste exato momento, no Instituto de Tecnologia da Califórnia, um pesquisador comprova a existência de um nono planeta, 10 vezes maior que a Terra.

Neste exato momento, mil cientistas de 14 países, incluindo o Brasil, trabalham para aprimorar a teoria da relatividade geral.

Neste exato momento, um médico de Israel estuda como nossos anticorpos podem identificar e combater tumores cancerígenos.

E em Formiga, Minas Gerais, um presidiário que recebeu a medalha de bronze nas Olimpíadas de Matemática estuda para a prova mundial.

Ali, impressos e despercebidos, estão tantos motivos que nos inspiram e nos fazem seguir em frente. A inspiração para criar não existe, o que existe, sim, é a inspiração para viver. E, quando você realmente gosta do que faz, trabalho e vida se misturam, criando a tal da motivação. Porque a inspiração pode desistir fácil, evaporar. Mas a motivação é triatleta, ela aguenta o tranco, ela acorda cedo pra correr no parque, cai e levanta. Assim, com um mundo que nos inspira e uma profissão que nos motiva, fica menos difícil e muito mais divertido.

Rafael Pitanguy é vice-presidente de criação da Y&R

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