O mundo atual anda muito traiçoeiro para o processo criativo: nunca tivemos acesso a tanta informação e referências. Conseguimos saber, em segundos, a última tendência no consumo de iogurte dos millennials na Ásia, e, em uma das 18 tabs abertas no seu computador, temos a mais recente exposição no Guggenheim, o último gadget do The Verge e por aí vai. Porém, nessa ânsia de consumir cada vez mais informação, processamos, conectamos e criamos cada vez menos. Nosso cérebro está tão ocupado, que não sobra tempo para refletir.

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Quem me conhece sabe o quanto sou ansioso e com vontade infinita de consumir conteúdo, mas desenvolvi ao longo dos anos algumas dinâmicas que ajudam muito. Uma delas é não sofrer com o FOMO (fear of missing out – medo de estar perdendo algo bacana). Treinei minha mente para entender que não dá para ir a todos eventos, exposições, ler e assistir tudo o que gostaria. Simples assim. Faço diariamente 15 minutos de meditação, prática que me ajudou muito nesse equilíbrio. Outra coisa importante: pelo menos quatro viagens anuais para sair da rotina e estimular meu cérebro. Muita gente acredita que não valha a pena ir a um evento, pois normalmente todo o conteúdo estará online. Em 99% das vezes é verdade, mas quando você conseguirá parar para consumir e refletir sobre o conteúdo? Procuro ir a eventos que não sejam diretamente de comunicação, como Singularity University, TED e Hyper Island, entre outros. Esses momentos de pausa são muito inspiradores pra mim.

Outro aspecto que contribui muito com a inspiração é a curiosidade: nos últimos 20 anos, nossa dinâmica enquanto sociedade mudou mais que nos 200 anteriores. O advento do digital impactou de forma avassaladora nossos processos de trabalho, aprendizado e diversão. Observar curioso e sem prejulgamento o comportamento humano diante da tecnologia é uma fonte inesgotável de inspiração. Em um mundo em que tudo comunica e experiência é a moeda, olhar a jornada de uma criança no processo de consumir conteúdo ou de um idoso falando com a família através do WhatsApp é extremamente rico. Por isso, minha paixão atual é antropologia. Nunca imaginei que aquele um semestre que tive na faculdade fosse tão útil.

Um exemplo direto dessa minha aproximação da antropologia, nos últimos anos, é o projeto desenvolvido para a marca Johnson’s Baby. Foi observando o comportamento das mães, em especial aquelas com primeiro filho, que ficou evidente a imensa necessidade e procura por informações, diversas, sobre cuidados de recém-nascido e crianças. Infelizmente filho não vem com manual de instruções e a troca de experiências, nesse caso, é fundamental. Em uma simples pesquisa, encontramos milhares de blogs e posts em redes sociais de pais de primeira viagem cheios de questionamentos. Daí nasceu a plataforma colaborativa online Mimo, oferecida pela J&J para as mães trocarem dicas sobre a maternidade e minimizar dúvidas mais corriqueiras do dia a dia.

Esse é apenas um dos cases, que gosto de citar, como receita dessa fonte de inspiração baseada na análise do comportamento humano, curiosidade em compreender a fundo a evolução dessa dinâmica e pausas necessárias para maturação de qualquer projeto que impacta, verdadeiramente, a vida de pessoas.

Marcelo Tripoli é sócio e CCO da REF+T