Divulgação

Lembro-me, como se fosse hoje, da primeira vez que me deparei frente a frente com o quadro Sunrise with Sea Monsters, de 1845, do pintor inglês J. M. William Turner, na National Gallery de Londres – lugar que se tornou uma fonte de inspiração constante nos meus oito anos vividos naquela cidade. Todas as sensações arrebatadoras que um objeto pendurado na parede provocou em mim ainda causam certo arrepio.

O mesmo acorreu quando conheci o trabalho dos fotógrafos americanos Joel-Peter Witkin e Ansel Adams, que possuem olhares tão distintos que levam a uma profunda reflexão sobre influências, pontos de vista e escolhas.

Durante a Faculdade de Comunicação na PUC-RJ, tive uma aula de direção de arte com um professor que no primeiro dia disse aos alunos: “Qualquer um de vocês que quiser tirar uma semana em NY ou Londres para conhecer museus, galerias e bares estará automaticamente aprovado na minha disciplina”.

Infelizmente nenhum de nós teve tamanha audácia, mas felizmente as aulas foram tão provocativas e interessantes quanto a sua proposta.

Não estudei propaganda naquele semestre. Li Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, criei um deck de cartas satirizando os políticos da época, capas de LPs diretamente influenciadas por David Carson e sua revista Ray Gun. Escrevi até uma resenha sobre Guido Crepax e um artigo sobre a interatividade na arte em que tentava traçar um paralelo entre os artistas brasileiros Hélio Oiticica e Lygia Clark com o trabalho do norte-americano Richard Serra.

Essa foi certamente uma aula sobre inspiração. Sobre buscar, nos mais diversos lugares e fontes, o material bruto necessário que fomentaria o meu dia a dia de lá para cá.

Voltando aos sentimentos, talvez seja essa busca pelo desconhecido, pelo inesperado, por aquela sensação de frio na barriga que realmente me faz ir atrás de forças inspiradoras.

Recordo-me que após o término da faculdade fui cursar cinema no San Francisco Art Institute. Logo no primeiro mês embarquei na minha primeira e única experiência hippie, durante o Solstício de Verão de 2002. Uns amigos me levaram a uma festa nas Sierra Mountains, na Califórnia, onde homens e mulheres, acampados por três dias, passaram a maior parte do tempo convivendo nus, em meio a uma mesa comunitária em que todos ajudavam no preparo das refeições e festas que iam até o sol raiar.

Depois do primeiro dia, inspirado pela sensação de liberdade presente no ar e, confesso, por certo grau de constrangimento de ser um dos únicos mais pudicos, acabei sucumbindo e terminei a jornada alegremente trajando a minha Zorba branca, com um sorriso estampado no rosto a despeito de alguns olhares desaprovadores dos meus colegas peladões.

São esses sentimentos díspares que aparecem em situações e momentos inesperados, mas que de alguma forma se conectam e se transformam em algo maior, que realmente me inspiram.
Sentimentos esses que se mostraram presentes quando vi O Homem Elefante, de David Lynch, e Muito Além do Jardim, de Peter Sellers, pela primeira vez. Ou toda vez que assisto Toy Story e a maioria dos filmes da Pixar.

Essa força inspiradora que por vezes me deixa embasbacado, sem reação e com frio na barriga, sem saber como me portar, é uma das dádivas pelas quais sou grato.
Poder ver, ao vivo, um quadro de um dos meus pintores favoritos, Egon Schiele, ou tirar um tubo na praia do Leblon, tendo o Morro Dois Irmãos como pano de fundo, contribuem igualmente para esse caldeirão de emoções.

A própria descrição de “inspirar” no dicionário, do verbo transitivo de atrair (o ar) aos pulmões para depois expirar, a meu ver traduz a necessidade de uma constante busca e aprimoramento.
Como disse Sócrates, “Só sei que nada sei”, portanto, sigo a minha caminhada com nada melhor do que uma boa dose diária de incredulidade e curiosidade na busca por algo que, parafraseando os ingleses, “makes me tick”.

Sergio Alves é diretor-executivo de criação da Cheil Brasil