Juca Bala ou a importância do naming

“E sou já do que fui tão diferente/ Que, quando por meu nome alguém me chama,/ Pasmo, quando conheço/ Que ainda comigo mesmo me pareço.” Camões

Todo cuidado é pouco na escolha do nome, da denominação com que se batizará uma empresa, produto, serviço. Seus filhos e netos, também. Milhões de moços e moças, meninos e meninas de hoje não perdoam seus pais por escolherem seus nomes nas personagens das novelas da Globo da época, anos 1980, 1990 e 2000. Nomes datados. De personagens nada a ver com o que essas pessoas são.

No ponto de táxi em frente ao Madia Mundo Marketing o mais indesejado dos motoristas, de quem todos fugiam, chamava-se Orofoncio. Seu irmão gêmeo, Ulisses. Uma pessoa educada, cordial e médico consagrado em sua cidade. Já o Orofoncio, que todos chamavam de PC, acabou arrumando encrenca, perdeu a licença, furtou o telefone do ponto, desapareceu.

Nos últimos anos, temos testemunhado barbaridades cometidas com o naming de instituições seculares e consagradas. Sendo rebatizadas medíocre e vulgarmente por siglas e números.

E, assim, de forma tosca e patética, Bovespa virou B3, designação de vitamina ou remédio; e a monumental Beneficência Portuguesa, virou BP (por sinal, denominação que a British Petroleum adota há décadas). Por que não e apenas, como todos chamavam, chamam e continuarão chamando, Bovespa, Beneficência...

Até mesmo a campeã do marketing, Procter & Gamble adotou a gambiarra. E se rebatizou de P&G. Bobagem estratosférica. Se queriam simplificar – não precisava – por que não e apenas Procter? Naming curto, rápido, forte e gostoso de falar. Mas optaram pela bobagem P&G.

Na Folha de semanas atrás uma história hilária e megaemblemática sobre a importância do naming. Mônica Bergamo conseguiu entrevistar aquele que é conhecido como O Doleiro dos Doleiros, o Juca Bala.

Enquanto eu continuo a história, tente imaginar porque é conhecido como Juca Bala? Seu nome de batismo é Vinícius Claret. Em seu ofício de doleiro criou mais de 3 mil offshores em 52 países. Um craque da contravenção. Foi preso no ano passado no Uruguai, em decorrência da delação de um de seus sócios, Alberto Youssef, e pela Operação Lava Jato. Mônica conseguiu entrevistá-lo no escritório de seu advogado.

Voltando ao naming... Num determinado momento da conversa Mônica pergunta como Vinícius Claret virou Juca Bala. Segundo as palavras dele: “Um dia, em minha casa no Uruguai, um técnico foi instalar o MSN – programa para troca de mensagens. E aí me pediu que escolhesse um nome. Na hora, na falta de inspiração, olhei na mesa onde existia um pote com as Balas Juquinha. Bingo, pensei, escolhi Bala Juquinha! Mas, o e-mail Bala Juquinha não se encontrava disponível”. “Então, disse, vamos inverter e tirar do diminutivo, Juca Bala... E assim, Vinícius Claret virou Juca Bala”.

Segundo ele, essa foi sua sorte. Durante dez meses ficou preso no Carcere Centrale no Uruguai, rodeado de presos sanguinários e violentos. Nenhum dos presos se aproximou dele e todos o tratavam com maior respeito. Tinham certeza que seu naming traduzia sua especialidade e competência: Juca Bala. Terrível e cruel pistoleiro... matador profissional...”.

Isso posto, ao escolher uma denominação, lembrem-se, todo o cuidado é pouco... Imaginem o que teria acontecido com ele se tivesse conseguido o registro Bala Juquinha...

Já o que fizeram com a Procter, Beneficência e Bovespa foi sacanagem da grossa.

Francisco Alberto Madia de Souza é consultor de marketing (famadia@madiamm.com.br)

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