Memórias

Das muitas histórias que posso contar, há uma que só serve para rir, embora esconda uma lição

Era o tempo da ditadura. E eu vivi esta época, da qual tenho minhas lembranças. Sobre esse período, quando resolvo perder tempo com as chamadas redes sociais, leio muitas histórias, a maioria editada pela memória de quem escreve. Do paraíso na terra ao inferno mais tenebroso, leio a experiência das pessoas. Cada um tem o seu retrovisor e ele, tal como espelhos de parque de diversão, distorce a imagem mais ou menos ao sabor da visão atual de quem narra. Há quem ache que fomos a Finlândia, há quem diga que fomos o Haiti de Papa Doc. Mas, das muitas histórias que posso contar, há uma que só serve para rir, embora esconda uma lição, que o leitor mais arguto há de perceber. Estamos num importante festival de propaganda numa cidade famosa. Eu trabalhava na Thompson e era ela que pagava minhas despesas. Era também um tempo de imensa hipocrisia burocrática, pois não era possível se sair do Brasil com mais de mil dólares, ao mesmo tempo que brasileiro não podia ter cartão de crédito internacional. O que significava que nós, para sair do país, tínhamos de fazer obrigatoriamente contrabando de dólares, além de pagar tudo no exterior em dinheiro. Só o cinismo governamental poderia imaginar que era possível se passar 15 dias em qualquer país sério, comendo, bebendo e dormindo com mil dólares.

Mas vamos à história. Hospedei-me num dos maiores hotéis da cidade, com uma vista fabulosa para o mar. Ao fim do evento, na hora do checkout, para minha total surpresa, o concierge me disse que estava tudo certo, bastaria assinar a nota, pois as despesas já estavam pagas. Tentei argumentar afirmando que a Thompson tinha me dado o dinheiro, que eu não precisava dessa mordomia, que eu agradecia, mas deveria haver algum engano. O pessoal foi firme: bastava assinar. Tudo já estava pago. O táxi estava me esperando e meu avião saindo e decidi parar de argumentar. Juro que tentei pagar, mas eu não iria fazer um escândalo só porque não queriam receber meu dinheiro. O que eu não tinha percebido era que havia realmente um engano: o beneficiado era outro, um poderoso militar ocupando um cargo qualquer ligado à produção audiovisual, o que explicava o fato de ele estar no festival a convite. Meses depois, soube o que tinha ocorrido na portaria do hotel 15 minutos depois que eu saí. Limpinhos e perfumados, com as malinhas prontas, apareceram no saguão do hotel o casal poderoso e a filhinha adolescente pedindo para fechar a conta. Quando ela veio, uma nota preta, o nosso homem importante puxou a caneta, caprichou na assinatura e devolveu o papel. Ao que o chefe da portaria perguntou: “o que é isso?”. E ele responde: “minha assinatura”, para ouvir outra pergunta, já um pouco mais seca: “sim, mas e o pagamento?” Fechou o tempo. Não tinha ninguém da produção do festival ali na hora, não dava para verificar o que tinha ocorrido e os galões da autoridade não valiam nada naquele país. Ninguém ligou para ameaças. O porteiro só perguntava pela grana, pelo faz-me-rir, pela bufunfa. O hotel não tinha medo de tropas na rua, de incidente diplomático, de retaliação armada. Queria o pagamento. Foi uma zona que terminou com a autoridade furibunda, espremendo o bolso e juntando o dinheirinho para cumprir o compromisso. Não sem antes de mimosear os presentes com uma coleção de impropérios.

É claro que meus leitores já perceberam que tinha ocorrido uma troca e na portaria e meu nome aparecia como convidado. Lembrem-se que eu reclamei bastante e tentei pagar, que foi o hotel que não quis receber. Não sei até hoje como esta história acabou. Eu devolvi o dinheiro à Thompson que, por sua vez, não conseguiu jamais ressarcir quem quer que seja. Todos os contatos que fizemos deram em nada. Jamais alguém disse saber da história. Se eu tivesse ideia de que acabaria assim, sob um manto de silêncios, teria passado aquela semana tomando os mais caros vinhos da adega do hotel. E olhe que vários almoços, para economizar, eu comi num restaurante baratinho fora da zona rica da cidade. Definitivamente não nasci para ser estelionatário. O que é uma pena.

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira.luvi@gmail.com)

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