O Brasil que deveríamos evitar

Extremamente avançado em muitos setores, o que lhe empresta a condição de 8ª ou 9ª economia mundial (há controvérsias), o Brasil não raro lembra Contrastes e Confrontos, de Euclides da Cunha, apresentando situações e conteúdos de total descalabro. 

Um deles está de volta nestes dias e se constitui o famoso horário eleitoral gratuito na mídia eletrônica, que de dois em dois anos nos brinda com um painel de candidatos a cargos eletivos, em que sobressaem, principalmente nas apresentações dos candidatos às Câmaras municipais e estaduais, além da Federal e do Senado da República, os mais variados tipos da sociedade brasileira.

Infelizmente para a população que não participa dessa gincana, a não ser como espectador ou ouvinte, torna-se na grande maioria das vezes insuportável assisti-los ou apenas ouvi-los, tendo em vista o baixo nível com que se apresentam, transformando em tragicomédia o pouco tempo a cada um destinado.

A situação melhora um pouco quando os candidatos concorrem à Presidência da República e aos governos dos estados, além de algumas prefeituras (não desta vez, felizmente), mesmo assim com alguns beirando o ridículo ao exporem um despreparo que tornará inócua sua obrigação de melhorar as coisas.

O lado negativo dessa verdadeira história de horror situa-se no fato de que a grande maioria dos eleitores brasileiros, a quem esses “artistas” se dirigem, permanece impassível diante do descalabro que nos atinge de dois em dois anos.

Pior: acaba elegendo não raro os mais descompromissados com a responsabilidade das tarefas às quais se propõem, muitas vezes até por uma espécie de achincalhe, contribuindo dessa forma para só piorar o comando da administração pública brasileira.

Deve haver em algum lugar no país uma ou mais entidades que possam se propor a colaborar, para ser melhor entendido o horário eleitoral gratuito. Principalmente pelos candidatos a cargos eletivos que dele participam atualmente como atores mambembes da pior espécie.

Não podemos mais continuar impassíveis ao nosso próprio baixo nível de exigência, deixando-os à solta para nos tratarem como imbecis que na verdade não somos. Sofremos apenas de um mal difícil de definir, mas que pode ser compreendido como uma espécie de anestesia geral, diante de algo ruim que se repete com frequência e contra o qual não temos ou não procuramos forças para lutar.

Estamos falando da nossa impassividade diante das campanhas eleitorais, dando de ombros para o fato de que uma boa parte desses “artistas” vai nos governar e conduzir os nossos destinos, com boa possibilidade de nos transformarem lamentavelmente em suas cópias. Esse é o pior resultado possível desse comportamento desqualificado, tornando ainda mais impassível a maioria do eleitorado brasileiro.

 

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Enquanto isso, no mercado da comunicação comercial, os dirigentes e profissionais que representam os players desse jogo, que prossegue fascinante da disputa pelo consumidor, esforçam-se por sempre avançarem em suas performances. Não é apenas em festivais internacionais como o Cannes Lions que vemos esse Brasil moderno se destacar, com atenção especial para as nossas criativas agências de propaganda, que têm quebrado a cabeça em noites maldormidas, à procura de melhores soluções na comunicação dos seus clientes-anunciantes ao público consumidor.

Nesse particular, o Brasil é realmente pródigo. O produto final criativo das suas agências, não raro, se equipara ao que de melhor se produz no planeta, mesmo em comparação com países que outrora chamávamos de Primeiro Mundo. No caso da publicidade, os festivais internacionais do setor invariavelmente apontam para os Estados Unidos, a Inglaterra, a Espanha, a França, a Alemanha e outras nações que influenciadas por essas lideranças têm aprendido a produzir o melhor da comunicação publicitária.

Podemos situar nosso país entre estas, mas hoje com maior frequência entre as primeiras acima relacionadas. Costuma-se dizer nas rodinhas de profissionais que se formam em torno do Cannes Lions, que, se o Brasil fosse em todos os setores como é na propaganda, seria realmente um território mais de entrada dos seus filhos espalhados pelo mundo, do que de saída daqueles que aqui se acham ansiosos para nos deixarem, em busca não apenas de melhores oportunidades financeiras, mas também e principalmente de seguras condições de vida, pelas quais o futuro pode ser enxergado não como uma possibilidade, mas como uma certeza total.

Comparando ambas as situações acima descritas, a conclusão é inevitável: há mais de um Brasil dentro do Brasil e a luta do nosso povo é buscar aquele onde o sol bate com frequência, evitando o país das sombras que não para de se alastrar entre nós.

 

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Nesta edição do PROPMARK, interessante matéria sobre a mudança de preferência de algumas agências de publicidade em relação às suas sedes. Se até há pouco o ideal eram as suntuosas, exibindo poder e bom gosto, hoje isso deu uma guinada de 180 graus, embora ainda permaneça um tabu sobre se comentar e explorar essa transformação ambiental.

Sem dúvida, há uma questão financeira impelindo as agências para sedes menos onerosas, mas a maioria ainda prefere não falar sobre isso, tantas foram as gerações desse tipo de atividade que cultivou e cultuou o esplendor arquitetônico.

Costumes de uma época em extinção, hoje sendo substituída por outra em que a contenção de gastos é uma virtude. Até porque as agências, mesmo ainda sendo um bom negócio, deixaram de há muito para trás o cultivo de um luxo patrimonial que, se no passado impressionava bem, nos dias atuais pode funcionar ao contrário.

Como tudo na vida, porém, há as exceções, há quem prossiga pensando que a opulência transmite segurança a clientes, prospects e ao mercado em geral. Bom que assim seja, pois significa que em um setor onde o que menos pode imperar é a mesmice, ainda se pode e deve se cultivar a diversidade.

Essa é inclusive uma das forças do produto final publicitário, onde se exige sempre a solução criativa, em outras palavras a comunicação surpreendente e encantadora, transmitindo ao público a verdadeira capacidade de inovar.

 

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Este Editorial é em homenagem a Marcia Esteves, presidente da Grey, uma agência atuante do nosso mercado, que está a cada dia mais irrequieta. Sua equipe acaba de conquistar a conta da cerveja Devassa. Conta de cerveja, entre outros produtos, é o sonho de toda agência de propaganda, principalmente pela multiplicidade de soluções de comunicação.

Armando Ferrentini é presidente da Editora Referência, que publica PROPMARK e as revistas Marketing e Propaganda (aferrentini@editorareferencia.com.br).

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