O invasor

Eric não era filho de algum cliente, como a agência supunha, nem filho de alguém da agência, como pensava o cliente

Aconteceu de verdade há muitos anos. Outros tempos, de leiautes desenhados à mão. De jornais impressos e meia dúzia de canais na televisão. Antes da internet. Tempos de revistas em papel. Anúncios de cigarros. Tempos nem melhores nem piores. Outros. Mas me lembro esse dia como se hoje fosse. No máximo ontem. Foi, eu me lembro, num sábado. Uma apresentação de campanha na agência. Porque sábado a memória já me foge. Mas devia haver uma razão. Só sei que era sábado e marcou-se uma reunião de revisão de uma campanha com parte do time do cliente.

Quatro horas da tarde, aquele horário que inviabiliza o sábado inteiro, pois não dá para beber no almoço nem programar um belo jantar porque não se sabe a hora que a porcaria da reunião acaba. Para quem tem família a coisa piora ainda mais, pois há que se negociar com os filhos com agendas estruturadas, desde o futebol e o cinema até o aniversário da melhor amiga ou amigo (deles). Estas reuniões no fim de semana, naqueles tempos antigos, tinham ainda o problema da falta de infraestrutura no escritório, sem café, algumas vezes sem ar-condicionado e sem as pessoas antigamente fundamentais para a existência da indústria da propaganda: telefonistas, boys, auxiliares e secretárias.

Hoje aos poucos já não se precisa mais nem de redatores e diretores de arte, mas é uma outra história. Voltamos à que eu estou contando. Neste sábado específico nos reunimos na agência, um bando de panacas, meio envergonhados em seus bermudões domésticos, tentando manter o clima profissional. Hoje se trabalha assim, mas naquele tempo ir de bermuda ao escritório era impensável.

Veio a diretora de arte com a filha que ficou brincando no computador, veio o mídia com a cachorra que ficou amarrada na recepção bebendo água no cinzeiro da mesa da diretoria, veio o planejador com a namorada que ‘Meu Deus do Céu’, que mulherão! Com todo respeito. A agência parecia uma grande cabeça de porco, com todo mundo de porta aberta, conversando, nossas roupas comuns dependuradas, aquele leve ar de zona. Daí chega a turma do cliente. Também vestida esportivamente. Vem um, vem outro, e os que vieram a trabalho se concentram na sala de reunião.

Junto entra um garoto de uns cinco ou seis anos, cara de jogador mirim do time do inferno, com um copo gigante de Coca-Cola na mão, um sanduíche melado na outra, puxando uma pinscher pela correia e senta-se numa cadeira. Sua primeira providência foi enfiar o dedo sujo de mostarda na lente do projetor. A segunda foi limpar a mão no estofado da cadeira.

Evidentemente todos acharam uma gracinha o pentelho abusado, tratando com aquela intimidade forçada que os adultos usam quando querem agradar pais de criança. E o garoto parecia estar com a macaca. Serviu-se da garrafa térmica de café, espalhando manchas pelo carpete inteiro. Depois foi até a recepção e soltou a cachorrinha para fazer xixi no corredor, puxou o cabelo da filha da diretora de arte que, além de chamá-lo de “seu grande filho da puta”, para desespero da mãe, abriu um berreiro que inviabilizou o começo da reunião bem uns 15 minutos.

Todo mundo sorria amarelo para todo mundo e o Eric, conforme o mau-caraterzinho disse se chamar, brincou de pular no sofá da sala de espera da diretoria e derrubou o vaso de samambaia em cima do computador da secretária. Até que vem o segurança e avisa que tem um casal lá fora, desesperado, perguntando se alguém tinha visto o filho deles que havia desaparecido de uma festinha de aniversário na vizinhança. Ou seja: o Eric não era filho de algum cliente, como a agência supunha, nem filho de alguém da agência, como pensava o cliente. O Eric não foi linchado por pouco.

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira.luvi@gmail.com)

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