O que inspira Ana Castelo Branco, diretora de criação da DM9DDB?

Publicidade requer dedicação, mas em algum momento é preciso se afastar

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A inspiração? Hoje? A inspiração é estar de volta. Eu sei que propaganda às vezes cansa. Que de vez em quando bate um sofrimento pelas madrugadas e fins de semana. Que, de tempos em tempos, dá vontade de fazer alguma coisa diferente. Aquele livro, aquele curso de cinema no exterior, aquela startup com a nossa cara que vai revolucionar o mundo.

Mas, posso dizer o que realmente sinto hoje? Sinto “que delícia”. Que delícia ser paga para ter ideias. Que delícia acordar de manhã para encontrar tanta gente bacana. Desde o Valdir Bianchi, dupla genial que me ensina e faz rir o dia inteiro, até o estagiário millennial cheio de não-me-toques, mas que sempre traz um jeito novo de enxergar um job.

Desculpe. Eu sei que pode parecer uma animação meio exagerada. Mas é que passei quatro anos afastada da profissão. Filho com síndrome de down, outra gravidez quatro meses depois de terminar a primeira que, na verdade, era a segunda porque perdi o primeiro bebê. Foi muita coisa para administrar. Nesse passeio pelas dunas do Nordeste “com emoção” que foi minha história com a maternidade, tive de fazer escolhas e foi para a “Dona Propaganda” que resolvi pedir um tempo. Não era nada com ela. O problema era eu.

Foram quatro anos fora da vida como eu a conhecia desde os 18. Recebi alguns “parabéns” pela coragem. Recebi declarações de inveja (eles que disseram) de alguns amigos.

Até que, um dia, a Sophie Schönburg (que provavelmente vai me matar por citar seu nome) me chamou para um freela. E, não, Aninha, esse não dá para ser feito de casa. Então, lá fui eu. Fui reviver o que era estar em uma agência. Juro que, naquela primeira manhã, senti mesmo como se estivesse indo encontrar aquele namorado lá de antigamente que já não lembrava mais porque larguei. Queria ter ido mais arrumadinha. Mas, depois de alguns anos, três gravidezes e dois filhos, as roupas mais legais não couberam. Nem os sapatos. Sabia que o pé da gente cresce depois de ter filho?

Era um job. Daqueles bons. Tinha a ver com parto, com maternidade. Levei poucas horas para perceber que ainda sabia pedalar. E mais: percebi que pedalava melhor levando dois bebês e uma quantidade enorme de aprendizados comigo. Carga nada leve. Boa. Mas nada leve.

Lembro-me exatamente do momento em que, depois de algumas horas naquela posição clássica de Chico Xavier de quem está criando, levantei o rosto e olhei em volta. 

Vi garotos barbudos em suas camisas xadrezes trocando ideias com meninas lindas e tão, mas tão, cheias de atitude. Lembro-me direitinho da sensação: que delícia. Caramba, nada melhor que estar aqui, agora. Confusa entre me sentir muito velha ou jovem como há muito tempo não me sentia. Tudo ao mesmo tempo. E este trabalho delicioso e urgente para entregar? Amor, hoje você vai ter de colocar as crianças para dormir.

De lá pra cá, não teve jeito. Pouco tempo depois, o Guy Costa me chamou para outro freela. E, neste momento, eu já estava me sentindo como alguém que reencontrou o “ex-amor-da-vida-toda”, já está dando umas “ficadas”, mas quer logo é voltar de vez. (Juro que estou falando da propaganda, Mari.) E a proposta veio: Aninha, quer voltar? Hum, preciso pensar. Mentira. Claro que quero.

E assim voltamos, eu e a propaganda. Hoje, pensando bem, os primeiros dates aconteceram com a ajuda da Sophie (agora ela me mata mesmo), o namoro foi armado pelo Guy (Mari, você entendeu) e acabamos casando de novo com as bençãos da DM9, de Nizan e Paulo Coelho.

Adoraria dizer aqui neste textinho que a minha inspiração vem dos clássicos da literatura ou de filmes dirigidos por caras com nomes gigantescos que não sei pronunciar.

A infância no Piauí traria um elemento-raiz interessantíssimo. Eu também me sentiria bem mais interessante. Mas não seria verdade.

Minha inspiração hoje vem da enorme saudade que senti dessa loucura que é trabalhar em criação, em agência. E da delícia que é, depois de alguns anos, saber que essa doida pode receber de volta aquela menina apaixonada de 18 anos que, aos 38, precisou conhecer melhor a vida e hoje tem 43, mas continua amarradona.

Ana Castelo Branco é diretora de criação da DM9DDB

 

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