Orgulhos e vergonhas

Há décadas conto besteiras que cometi (muitas) e outras das quais fui testemunha

Tenho poucos orgulhos e muitas vergonhas nesta vida. As vergonhas que são contáveis eu conto. Este meu espaço já registrou alguns micos que até hoje me deixam vermelho. Uma espécie de exorcismo que faço para que os fantasmas de burrices passadas não venham me tirar o sono. Por outro lado, são complacentes os meus leitores. Há décadas conto besteiras que cometi (muitas) e outras das quais fui testemunha. E eles continuam me lendo. Não sei como agradecer. Ainda que às vezes me permita cobrir alguns casos com o manto diáfano da fantasia, a grande maioria do que conto é verdade, ou quase. E, agora, se segurem que aí vem autorreferência. Um breve relato para que, modestamente, possa mostrar como eu sou foda. Começo com uma afirmação pretensiosa: de alguma forma contribuí para a volta do chorinho no Brasil. Não me abandonem, pelamordedeus. E me deem o benefício da dúvida.

Vai lá a história. Há muito tempo, a dupla formada pelo grande Arturo Gerardó e por mim, criou para a Companhia Internacional de Seguros uma série de álbuns resgatando gêneros musicais brasileiros meio esquecidos. Era o fim da década de 1970. Garimpamos velhos discos e regravamos com os melhores e mais respeitados artistas da época. Fomos buscar Valsas Brasileiras, Lundus e outros. Quando chegou a vez do choro, sob o protesto do grande Mozart de Araújo e do Ricardo Cravo Albim, gente séria, batizamos o álbum de Chorada, Chorões, Chorinhos, que tem uma boa sonoridade, mas, convenhamos, não quer dizer porra nenhuma, uma vez que Chorada nunca foi gênero musical. Mas em nome da sonoridade acabou ficando, para horror do lado – digamos – mais exegeta do nosso time de produtores. Os álbuns foram lançados em monumentais eventos no Brasil inteiro que, além da execução ao vivo das músicas, ainda contavam com um espetáculo de multivisão, uma imensa parafernália de 72 projetores comandados por um computador sofisticadíssimo para a época. Sua capacidade era menor do que um celular vagabundo de hoje, mas embasbacava todo mundo. O som então dava inveja aos astros de rock, com imensas caixas acústicas fazendo um esporro de sacudir catedrais. Para se ter uma ideia, eram 2.500 slides projetados numa multitela de mais de 10 metros de largura. Foram feitos espetáculos nos teatros municipais do Rio, São Paulo, Vitória, Belo Horizonte e assim por diante.

O primeiro evento foi no Municipal do Rio, com direito à presença do presidente da República. E foi daí... Bem, expliquemos. Estávamos na noite anterior à estreia montando na AV Estúdio a tal multivisão que contava a história da música popular brasileira. Tínhamos algo em torno de 10 mil slides para escolher, colocar nos carrosséis e sincronizar. Um trabalho insano que não admitia erros. Até que descobrimos que não tínhamos um único slide que mostrava o rosto de um músico fundamental na história. O flautista Patápio Silva, um dos pais do choro. A trilha sonora já estava pronta, e pela tecnologia da época não seria possível fotografar e revelar um slide colorido de um dia para outro. Como fazer? Desesperado, encontrei no arquivo da produtora um slide com o rosto de um jogador da Portuguesa de Desportos, de São Paulo. Era a cara de um Patápio Silva, pessoa que não tive a honra de conhecer. O Fernando Gerardó não queria deixar, mas argumentamos que ia ser uma exposição rápida, que ninguém ia perceber, que a gente ia multiplicar o rosto do jogador, dificultando a identificação, e no dia seguinte trocaríamos o slide colocando o verdadeiro Patápio. E assim foi feito. A apresentação foi um sucesso. Tão grande que durante meses o multivisão atravessou o país com o becão da Lusa do Canindé no papel do introdutor do choro. Por preguiça, falta de tempo ou dificuldades técnicas, nunca trocamos a foto e o jogador da Portuguesa continuou representando o músico. Deus me perdoe, mas eu acho que essa foi minha grande contribuição para a documentação da história da música no Brasil. Sempre que me lembro dessa história, dedico-lhe uma prece por gratidão. Que Deus o tenha em sua seleção.

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira.luvi@gmail.com)

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