Paquidermes contra a parede

“Cuide de vossa graça, pois aqueles ali não são gigantes, mas moinhos de vento, e aquilo que pensais serem braços são as pás que, girando o vento, movem a mó”. - Miguel de Cervantes

A vida dos paquidermes não anda fácil. No curto prazo, ingênuos e desavisados de todo o gênero ficam impactados com os lucros exuberantes que os paquidermes, talvez, novos dinossauros, ainda são capazes de garantir a seus acionistas. Mais todos os bônus que pagam aos profissionais que os comandam.

É o tal do efeito inércia. Ou, a energia decorrente do vácuo. De uma série de movimentações e iniciativas, anos e até décadas passadas, que agora se encontram no ápice dos resultados. Lembra aquele ponto mais alto das montanhas-russas, que antecede a descida vertiginosa e insuportável.

Mas, daqui a dois ou três anos, não se colherá uma fruta sequer, de uma árvore que parecia momentos atrás ser de fertilidade infinita. Assim, os investidores, mesmo recebendo dividendos, começam a se incomodar. Da mesma forma que os gestores dos fundos a quem confiaram as suas fortunas e economias para gestão sobre grande pressão.

Os investidores temem ver parcela expressiva de suas riquezas derreterem junto com o derretimento, por letargia, gigantismo, incompetência e dificuldade de movimentação, dos paquidermes da velha economia.

E cansado de ser pressionado por seus investidores, apenas como exemplo, o fundo Third Point, de Daniel Loeb, depois de uma trégua de um primeiro ano, cobra publicamente do presidente da Nestlé maior agilidade nos planos e na ação.

O Third Point detém hoje 1,25% do capital da Nestlé, decorrente de investimentos superiores a US$ 3,5 bilhões feitos nos últimos anos. As cobranças do fundo ao paquiderme quase dinossauro Nestlé são as seguintes:

1 – Agir com senso de urgência nas Unidades Essenciais – Alimentos – e desfazer-se, com urgência total, das unidades nada a ver.

Unidades essenciais: café, produtos para animais de estimação, água e nutrição.

Unidades nada a ver: pizza e sorvetes.

Daniel Loeb em manifestação pública disse: “Embora reconheçamos que a Nestlé tem limitações culturais e estruturais peculiares, esperamos agora que o dr. Ulf Mark Schneider, que já completou seu primeiro ano no comando, contando com todos os sangues novos da empresa, consiga agir com maior assertividade e determinação”.

E, ainda, com idêntica ênfase: o fundo exige que a Nestlé venda imediatamente a sua participação na L’Oréal. Pondera e cobra Daniel: “Hoje não faz mais o menor sentido deter uma participação minoritária em uma empresa de beleza e muito menos faz a Nestlé mais forte e competitiva em nutrição, saúde e bem-estar, como ingenuamente se imaginava anos atrás...”.

E nada mais disse. Fez-se o silêncio.

Mesmo diante do absoluto silêncio, Mark Schneider e seus demais companheiros de diretoria não conseguem mais dormir em paz. Noites de longas e extenuantes insônias. A vida dos paquidermes não anda fácil. A vida de seus dirigentes pior anda. E só vai piorar. O aguardado momento se aproxima. Conseguirão os paquidermes reinventarem-se a tempo, evitando o processo ainda não perceptível, mas potencialmente acelerado de fossilização?

Possibilidade muito próxima de zero de acontecer. Talvez, com otimismo, com muito otimismo, de cada 100 uns dez consigam se salvar. Se tanto. Já os outros...

Francisco Alberto Madia de Souza é consultor de marketing (famadia@madiamm.com.br)

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