Por um novo Noel

Comigo as crianças descobrem que o bom velhinho é uma peta inventada pela família

Toda vez que fui Papai Noel não deu certo. Acho que por ser gordo e barbudo, as pessoas acreditam que tenho vocação para passar-me por Saint Klauss, vestir-me de vermelho e andar com saco às costas distribuindo presentes. Pois sou um fracasso, embora em tese deveria ser um Noel de responsabilidade, já que tenho um encanto especial pela data e gosto de crianças. Mas tudo que existe de poesia numa das mais bonitas lendas do mundo moderno, tenho conseguido destruir. Comigo as crianças descobrem que o bom velhinho é uma peta inventada pela família. Em primeiro lugar, acho eu, é porque normalmente o Papai Noel tem de aparecer já meio no começo da noite, que é quando os novinhos já começam a ficar com um pouco de sono, e a natural ansiedade infantil já está começando a ficar insuportável e os pais não aguentam mais as brigas dos priminhos e amigos, o futebol na sala e a bagunça geral na casa, incluindo a destruição total de algumas valiosíssimas peças de decoração que vão de autênticos bibelôs da bisavó a miniaturas da Torre Eifell made in China.

À esta altura a vítima daquele ano, o Papai Noel, ainda está vestido como paisano, já entornou todas e mal se lembra do nome de todos os sobrinhos. Em alguns casos, sente até saudades da Lapônia, que apesar de frio tem apenas a companhia dos anões fabricantes de brinquedos, classe profissional que, tirante a mania de cantar músicas de Walt Disney durante o trabalho, não perturbam o silêncio que atravessa o ano. E, no meu caso, quando chega a hora de vestir a fantasia, o calor já está absurdo (moro no Rio de Janeiro) e o tecido do uniforme é o mais vagabundo que existe, além da bota de gari da prefeitura, vários números menor, e a barba que é grudada na própria barba natural com o que estiver à mão, e pinica como o diabo, além de jamais querer ficar no lugar. Daí alguma tia segura na sua mão e grita para as crianças: “olha quem chegou!” e lhe joga num turbilhão de histéricos que lhe puxam as calças, desarrumam o dolmã, esticam a barba e lhe dão tapas, como se esta fosse uma maneira engraçada de lhe dar as boas-vindas. Enrolando as palavras, graças à longa viagem desde as terras nórdicas e os litros de vodka consumidos, você começa a distribuir os videogames, tablets, iPhones e outros ingênuos brinquedos do mundo moderno. A sorte é que cada um que recebe seu mimo vai se afastando para curtir o que ganhou, dando ao pobre Noel a oportunidade de respirar um pouco e entornar, sob o olhar reprovador de sua mulher, mais umas doses de vodka e fazer uns ohohhos! que a você mesmo soam ridículos. Acontece que não há mais novidades nos presentes de Natal. Não existem mais carrinhos de bombeiros, aviõezinhos à pilha nem revólveres, embora o Bolsonaro seja a favor que nos próximos Natais na lista de presentes estejam incluídas pistolas automáticas e semimetralhadoras porque é na terna infância que se treina o cidadão. Mas esta falta da surpresa, pois até minha neta de 2 anos sabe exatamente o que quer e o endereço do site que vende, sobra ir encher o saco do Papai Noel, vazio de presentes à esta altura, mas já à disposição para ser aporrinhado.

Pois bem, no Natal passado eu resolvi me livrar daquela encrenca e decidi ser um Papai Noel para jamais ser cogitado novamente. E entornei muito mais do que devia. Na Rua da Alfândega comprei um sinão de arrebentar os tímpanos do quarteirão inteiro e incorporei um Papai Noel mal-humorado, dizendo que brigou com as renas, que o Rudolf estava cada vez mais metido à besta, que o trenó tinha sido multado e que eu tive de subornar o guarda para chegar na casa. E o fiz com a linguagem mais grosseira, mais sem humor e bondade que encontrei, reclamando de tudo, incluindo a TV Globo, os resultados das eleições e o trânsito. Entusiasmado, critiquei os vestidos de algumas tias e pedi um hambúrguer para comer e um uísque legítimo para dar uma folga à Vodka. Deus me perdoe, mas sobrou alguns pontapés (de leve, de leve) em alguns pimpolhos, um tapinha na cabeça de um mais chato e um vá tomar no cu para um semiadolescente que resolveu me chamar de Papai Noel viado. Conclusão: neste Natal não se cogitou em outro Papai Noel. Pior do que isso, veio vizinho participar da festa. Tive medo de exagerar mais ainda, promover um escândalo e ser eleito vereador. Afinal, as crianças parecem estar cansadas da velha geração de Noéis.

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira@grupomesa.com.br)

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