Rio, ainda?

Eu continuo amando o Rio. Teimosamente continuo por aqui

Por que você está assim, meu Rio de Janeiro? Que mal você fez para merecer o que lhe está acontecendo? Seria acaso aquela maldição à qual se referia Vinícius, que pedia a Deus que protegesse a mulher bonita, pois é a ela “que o homem molesta, que o homem não presta, não presta, meu Deus?” O Rio sofre a mais triste das dores, a dor do que poderia ter sido e não foi. Porque não há nada mais lindo que o Rio de Janeiro, mesmo habitado. O Rio não precisa ser selvagem para ser a Cidade Maravilhosa. Mesmo com prédios, mesmo sobrepovoada, é uma cidade única. Ou poderia ser. Ou foi.

Quando eu cheguei por aqui, tive a mesma sensação que os poetas que cantaram a cidade tiveram: puro deslumbramento. Nunca precisei imaginar a terra selvagem para julgar o Rio abençoado, pelo contrário. O carioca do meu olhar estrangeiro recém-chegado completava a paisagem da cidade, com seu humor, com seu espírito gregário, com os corpos coloridos pelo sol. Não falarei das mulheres, pois essa ousadia não tenho. Você, minha leitora, meu leitor, pode comparar o que digo com o que já foi falado em rimas e texto por outros. E (nem sempre, mas desta vez sim) não estou disposto a expor-me ao ridículo com tanta desfaçatez.

Mas seja lá como for, não houve no mundo, pelo menos até onde vai meu conhecimento, cidade tão abençoada. Havia música, dança e alegria nesta cidade. E sou testemunha, pois vi, ouvi e vivi um Rio de encher olhos e alma com sons e luzes. Não estou idealizando o passado, me esquecendo das mazelas. Como embrião do que ela se transformou, já existiam problemas. Mas não havia medo, desesperança e ódio. As desgraças que a natureza trazia, e trouxe muitas, não eram provocadas de forma tão cínica. Havia políticos picaretas, mas era possível achar a contrafação à desonestidade e ao cinismo.

Mesmo o ódio tinha certa compostura. O que hoje é triste rotina, teve um tempo que era manchete de jornal. Eu cheguei a pegar lotações que, mesmo não tendo qualquer tipo de organização, eram mais civilizados, mesmo que conduzidos de maneira selvagem. Sou testemunha do impensável hoje em dia: prédios com apartamentos térreos que permaneciam de janelas abertas, onde se podia ver famílias jantando ou vendo televisão e se podia murmurar um “banoite” ao cruzar de olhares mesmo desconhecidos.

O Rio já era metido a internacional, mas na Tijuca, em Ipanema e em quase toda Zona Norte havia cantões que lembravam a minha Lapa de São Paulo. Que, aliás, era a contrafação da Lapa do Rio. Uma, a paulista, moradia de classe média baixa trabalhadora; a outra, sinônimo de putaria. Hoje escrevo com o sol às minhas costas, brincando comigo, balançando o rabo como um cachorrinho em busca de atenção. Um sol que andou escondido há semanas, substituído por um céu raivoso. Quero acreditar que as coisas possam voltar a ser o que eram. Mas infelizmente ele ilumina também a cara horrorosa de um desgoverno tão devastador quanto a natureza em fúria.

Cara que se reproduz em ruas abandonadas, morros desabados, olhares assustados e medrosos. A rua de meu novo escritório, onde fica um dos restaurantes mais velhos da cidade, que termina na Escadaria Selarón, um dos pontos turísticos mais conhecidos, no começo da noite se fecha, medrosa. Os bares cerram suas portas justo na hora que tempos atrás estavam lotados de gente e música. Os passos que antes passeavam, se apressam, levando gente de olhar preocupado rumo à frágil segurança de suas casas. Eu continuo amando o Rio. Teimosamente continuo por aqui.

Lotei minha casa de alarmes e câmeras. Só não consegui ainda convencer os cachorros que nem todo mundo é amigo, pois se alguém invadir meu terreno terá a mais carinhosa recepção. Mas tem hora que dá para ver um pedaço de montanha ainda verde, uma nuvem brincando de fazer um véu na cabeça do Cristo, uma nesga de azul dourado, uma morena a caminho do mar. Nessa hora acho que estou ficando rabugento. E fico tentando procurar onde foi que se escondeu a porra da esperança. Ou é simplesmente um problema de meus olhos? Esperança, volta, sua grande filha da puta!

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira.luvi@gmail.com)

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