Um estagiário no céu

Precisei ir a Minas apresentar à Fiat um folheto que mostrava o impacto econômico da chegada da montadora no estado

Uma do baú para vocês. Velha, muito velha, dos tempos da JMM. Mas muito boa. Lembra-me até um personagem da novela das 8, vocês vão identificar. Pois é, naquele tempo nós tínhamos a conta da Lider Taxi Aéreo (A Lider vai lá, lembram-se?). E tínhamos também um pedaço da Fiat, ainda na fase da implantação da fábrica em Betim. Ambas com sede em Belo Horizonte.

Certo dia eu precisei ir a Minas apresentar à Fiat um folheto que mostrava o impacto econômico da chegada da montadora no estado. Ao mesmo tempo, um boy da JMM (naquele tempo tinha isso) foi encarregado de levar na Líder um material qualquer, coisa de rotina, para ser entregue no aeroporto, colocado no malote e enviado à sede em Belo Horizonte. A criação, como de hábito, atrasou um pouquinho e, para não perder a hora da entrega, o dono da agência, João Moacir de Medeiros acabou aceitando a ideia de que alugássemos um jatinho para que eu fosse apresentar a tempo. Doeu-lhe como um parto, mas não tinha outro remédio. Enquanto isso, o tal boy que ia levar o material na Lider teve um problema qualquer e acharam um estagiário da criação para dar um pulinho no hangar da Lider no Santos Dumont e despachar a correspondência.

Coisa tão primária que ninguém se preocupou em ficar explicando os detalhes da missão. Alguém disse ao estagiário: “Vai para o aeroporto e manda entregar esta merda em Belo Horizonte. Vai a jato!”.

Ao mesmo tempo (olha o destino tecendo das suas) minha secretária (onde andará a Beth?) reservou um jatinho, também na Lider, para me levar a BH com todas as honras de cliente VIP, parceiro de negócios e – porra – diretor de criação da gloriosa JMM.

Daí deu-se a merda. O pistoleta (era uma expressão de época introduzida no vocabulário pelo glorioso Geraldo Alonso) do estagiário chegou no hangar da Lider meia hora antes do horário reservado para mim e se apresentou: “Eu sou da JMM!”. Não deram tempo para ele respirar. Levaram-no para um jatinho já com as turbinas quentinhas e decolaram. E lá foi o estagiário deslumbrado, comendo empadinhas e bebendo whisky escocês, na primeira viagem de avião da sua vida. Mal o infeliz aterrou em Pampulha, cheguei na Lider do Rio. Nem olharam para mim. Mandaram eu deixar o envelope na caixa e obrigado.

Depois de meia dúzia de palavrões consegui desfazer o engano. O puto do boy já estava em BH reclamando que a água Perrier não era com gás. Em compensação a reunião dos italianos da Fiat já começava e eu estava no Rio. Um dos diretores chegou a ficar tão puto que disse que o Brasil era uma esculhambação. Segundo ele, igual à Itália.

Conclusão: meia hora depois dois jatinhos se cruzaram nos céus. Um levando um gordo à beira de um enfarte, bebendo Logan pelo gargalo para não morrer, outro trazendo um estagiário de volta ao Rio sabendo que lá em baixo a dura rotina o esperava. Diz a lenda que o sacana, como não tinha pedido a ninguém para ser transportado com toda mordomia, ainda ofereceu carona a duas moças que vieram visitar umas primas em Copacabana.

Sem a menor culpa, o cara, além da mordomia de praxe, exigiu champanhe a bordo, não prevista no contrato, coisa que o Medeiros se recusou a pagar. E que significava uns bons três meses de salário do rapaz. Um dia eu estava trabalhando e o tal estagiário, hoje um profissional de sucesso, chegou e me confidenciou: “sabe aquelas moças que eu dei carona no jatinho? Elas me ligaram no dia seguinte convidando para sair. Fui de ônibus e levei elas pro Bob’s. Nunca mais me ligaram...”, concluiu filosoficamente. E acrescentou, olhando a fumaça do cigarro: “Tudo gente interesseira”. Outro dia ele me disse que achava estágio uma coisa importantíssima não só para aprender a profissão, mas para conhecer a vida. Sábias palavras.

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor (lulavieira.luvi@gmail.com)

*O propmark não se responsabiliza pelos comentários postados nas plataformas digitais. Qualquer comentário considerado ofensivo ou que falte com respeito a outras pessoas poderá ser retirado do ar sem prévio aviso.

Receba nossa newsletter

editora referência

O PROPMARK é uma publicação da Editora Referência.
Conheça também nossas outras marcas, prêmios e eventos.

Prêmios e Eventos

Publicações