D&AD mostra equilíbrio de gênero na escolha dos jurados deste ano

Mulheres vão presidir os júris de 15 das 28 competições do festival

Ainda pode ser relativamente cedo para apontar os trabalhos que de fato têm as melhores chances de conquistar os Lápis do D&AD 2018. Mas, se considerarmos o equilíbrio de gênero, o festival já merece um prêmio pela formação dos júris de suas 28 competições, que serão avaliadas de 24 a 26 de abril, em Londres.

Entre os 259 nomes que compõem as listas de jurados confirmadas até o momento, há uma divisão de homens e mulheres, de praticamente 50%, com um discreto predomínio de 134 integrantes do sexo feminino diante de 125 do masculino.

Uma avaliação isolada dos nomes do Brasil pode levar a uma suposta ausência de equilíbrio, já que entre os 13 representantes do país, nove são homens. Sob o ponto de vista macro, porém, no conjunto de representatividade como um todo, o equilíbrio é inquestionável.

Também é inquestionável o quanto a participação da mulher domina neste 2018 nas avaliações do D&AD. Entre os 28 júris do festival, mais da metade, um total de 15, será presidida por mulheres.

A maioria dos júris é formada por grupos entre sete e dez integrantes e, em praticamente todos eles, o equilíbrio de gênero está na faixa de 50%. Há uma maior diferença a favor do lado masculino em apenas duas categorias, como no júri de Music Video, por exemplo, com sete pessoas, sendo somente duas mulheres; e no de Press, com um total de oito profissionais, cinco homens. Por outro lado, há casos com fortíssima presença feminina, como ocorre no júri de Film Advertising Crafts, o maior do festival, com 35 integrantes. Ele será presidido por uma mulher, Alice Tonge, a diretora de criação da 4Creative, house agency do Chanel 4, de Londres, responsável por trabalhos premiadíssimos nos últimos anos como os filmes da campanha We’re the superhumans, feita para os Jogos Paralímpicos de Londres, em 2012, e da Rio 2016.

No júri de Alice estão 15 homens e outras 19 mulheres ao lado dela, incluindo a brasileira Mariana Youssef, diretora de cena que está atuando na Merman, produtora com escritórios em Los Angeles, Nova York e Londres. Definir júris para as competições publicitárias tem sido um grande desafio para os festivais internacionais diante da multiplicação de áreas de inscrições e da natural incapacidade do mercado de formar “grandes nomes” que sejam devidamente respeitados e, principalmente, não repetidos nos processos anuais de avaliação. Tal desafio se torna ainda maior com o equilíbrio de gênero e é neste sentido que os júris D&AD chamam ainda mais a atenção já que, em geral, a publicidade e todas as outras atividades de marketing ainda são um território predominantemente masculino.

“É muito positivo ver o foco na igualdade de gênero nos mais diversos setores da economia criativa. Tivemos um árduo trabalho para garantir o equilíbrio de gênero. O D&AD está comprometido em identificar e apoiar o talento feminino, mas sabemos que ainda há muito a ser feito em certos setores e em certos mercados”, admite Tim Lindsay, o CEO do D&AD. Sobre a participação feminina, Laura Kelly, diretora de marketing do D&AD, acrescenta que o festival tem orgulho de “trabalhar para garantir a visibilidade de diversas vozes criativas.”

LIDERANÇA E ESTEREÓTIPOS
O equilíbrio de gênero no júri do D&AD também é importante para o debate sobre a realidade da mulher, envolvendo tanto a presença de estereótipos na mídia, as posições em cargos de liderança empresarial ou as denúncias sobre assédio e abuso sexual. Para a indiana Anita Nayyar, do Havas Media Group, que vai presidir o júri de Mídia do D&AD, os anunciantes estão mais conscientes e cuidadosos com a realidade da mulher. “Os roteiros são feitos com maior cuidado”, ela sintetiza, afirmando contudo que estereótipos ainda existem de acordo com a cultura de diferentes países. Anita também lamenta que, em geral, ainda há poucas lideranças femininas nos processos de tomada de decisões empresariais.

A brasileira Joanna Monteiro, CCO da FCB Brasil, que está no júri de Marketing Digital, afirma que o mercado de agências de publicidade brasileiro enfrenta problema de igualdade de gênero, principalmente na área de criação. “A gente não cuidou disso. Não houve essa preocupação em formar mulheres. É um déficit muito grande. Fui procurar estagiárias mulheres para formar novas gerações e não encontro tanto”, conta Joanna. Segundo ela, além da falta de um maior número de mulheres para inspirar outras mulheres, durante muito tempo o mercado refletiu argumentos como ‘Você é muito bonita e deve ir para o atendimento...’ ou ‘Daqui a pouco você vai se casar e seu marido não vai querer isso para você’”.

Sobre aspectos de liderança, Joanna também fala que ainda há no mundo corporativo um “ranço de superioridade” masculina. “Quando o homem dá errado em um cargo de liderança, o processo é de uma simples substituição. Se a mulher erra, aí vêm cobranças do tipo ‘Viu? Eu não te alertei, eu não te avisei...?’”.

A diretora de cena Mariana Youssef afirma que a publicidade ainda trabalha com muitos estereótipos. “Na esfera daqueles escancarados, de vender cerveja, por exemplo, com mulher com a bunda de fora, a quantidade está diminuindo pois a marca que vier com esse discurso, vai apanhar. Mas, em geral, o estereótipo ainda existe porque a propaganda é o reflexo da cultura como um todo, que é muito machista.”

Questionada sobre o posicionamento dos anunciantes na realidade da mulher, Keka Morelli, diretora de criação da AlmapBBDO, no júri de Integrated do D&AD, acredita que a mudança no conteúdo das marcas começa nos bastidores. “Não passará de modinha e de oportunismo se as empresas não fizerem a lição de casa, construindo equipes de trabalho com mais diversidade, com mais representação nas equipes de marketing, criação das agências e produtoras”, ela diz. Sobre estereótipos, ela avalia que a transformação de conceitos na publicidade é um “exercício contínuo de mudança de olhar, de aceitação, de redefinição de padrões e de questionamento”.

ELES E ELAS
Claudio Lima, vice-presidente nacional de criação da Ogilvy, que está no júri de Film, defende a diversidade nos festivais. “Quando o júri é uniforme, mesmo em um critério de idade, por exemplo, o resultado vai ser de alguma maneira deturpado”, ele diz. Lima também avaliou o equilíbrio de gênero na área de criação das agências. “A gente não está pronto, não está equilibrado”, ele admite em relação à própria Ogilvy, em que o total da equipe tem cerca de 30% de mulheres. “Queremos 50%”.

Àlvaro Rodrigues, CEO da Fullpack e no júri de Media do D&AD, afirma que, em geral, as marcas estão “muito mais atentas” à realidade da mulher, apesar de ainda haver estereótipos na mídia. “Mas a publicidade está entendendo que práticas e fórmulas do passado não funcionam mais. Ela entende que deve atuar como o mundo age e reage nos dias de hoje.”

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