Presença de diretoras de cena aumenta na área de produção

Em meio a movimentos como Free the Bid, contratações de mulheres têm se tornado mais comuns

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A produtora Paranoid acertou a contratação da diretora de cena Jessica Queiroz que, dentre outros objetivos, chega à nova casa para filmar para empresas de segmentos tão diferentes entre si como beleza, carros e bancos. “Não acho que diretor deve se limitar em um segmento da propaganda. Quero trazer também essa diversidade que consigo imprimir nos meus filmes para a publicidade. Poder escolher a equipe que vai filmar comigo, além de ter o poder representativo e o de fazer o dinheiro circular entre outros públicos também”, afirma.

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Jessica é parte de uma geração de mulheres que lutam para conquistar espaço na produção audiovisual, especialmente na direção de cena. Para Jessica, houve uma melhora de dois anos para cá, mas ainda são os homens que dominam as filmagens. “Mulheres são chamadas para marcas de beleza ou filmes de manifestos sobre empoderamento feminino. O que não vejo problema nenhum em fazer, mas a gente também sabe filmar carro e cerveja. Nosso olhar não é limitado a temáticas específicas”, conclama a profissional, que tem origem no RTV de agências.

A diretora de cena afirma que pretende trabalhar com maioria de mulheres no set, para dar oportunidades a quem não tem. “Consegui que todos os filmes de conteúdo que gravei fossem majoritariamente realizados por uma equipe feminina, negra e periférica”, conta.

Algumas iniciativas no mercado querem tornar histórias como a de Jessica mais comuns. Dentre as iniciativas para incluir mais mulheres na direção de cena, a que teve mais destaque foi o movimento Free the Bid, que já tem a adesão local de 14 agências de publicidade e prega uma ideia simples e de impacto na diversidade de talentos: a cada nova concorrência de filme a ser produzido, deve haver entre os diretores orçamentos de pelo menos uma mulher. De caráter global e voluntário, é capitaneado no Brasil pela diretora de cena Mariana Youssef, da Paranoid, e por Marianna Souza, presidente-executiva da Associação Brasileira de Produção Audiovisual (Apro). “Apenas 10 das nossas 35 diretoras não realizaram projetos com nenhuma das agências signatárias ao Free The Bid no Brasil neste ano”, conta Marianna.

MAIS TRABALHOS

O Free The Bid começou no Brasil com sete diretoras na plataforma, e hoje já são mais de 40 cadastradas. “Isso significa que mais diretoras estão sendo contratadas pelas produtoras e tendo a oportunidade de apresentarem seus trabalhos. Além disso, de acordo com o mais recente levantamento que fizemos com as diretoras, observamos que 40% das meninas disseram que o movimento contribuiu para o aumento no volume de orçamentos ou trabalhos. E 28% dos orçamentos foram revertidos em trabalhos de fato, o que me deixa extremamente satisfeita. A meta agora é ampliar essa porcentagem de trabalhos realizados”, avalia Marianna. Ela acredita que, apesar da evolução, há um longo caminho para as mulheres na produção. “Hoje temos uma voz que há três anos não tínhamos. Discutimos o assunto em diversos fóruns, e tanto as agências como os clientes se mostram cada vez mais conscientes da importância socioeconômica dessa pauta da diversidade e equidade de gêneros. Observamos um novo ciclo se iniciando com a ampliação do leque de diretoras que hoje participam de concorrências, disputando de igual para igual com homens. Porém, ainda são orçamentos menores, ou para segmentos específicos. Mas acreditamos que iniciamos um processo de transformação”.

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A Spray é uma das produtoras do mercado com grande presença feminina, como Judith Belfer, que também é engajada com o Free the Bid. “Ainda não são todas as agências que aderiram ao movimento. E é o que buscamos, para que mais diretoras mulheres tenham oportunidades igualitárias”, diz. “Justamente por ter tido dificuldades no início da carreira, faço questão de colocar mulheres em minhas equipes, pois sem oportunidade não há como ganhar experiência”, comprova. Ela fala que a chamada “visão feminina” é um preconceito. “Não é porque a diretora é mulher que necessariamente a visão será feminina, fofa, meiga. Cada um tem sua sensibilidade. A única mulher a ganhar o Oscar de melhor direção, por exemplo, Kathryn Bigelow, foi com um filme de guerra, violento. Ou seja, talento não tem gênero”, reflete.

Em paralelo ao discurso sobre mais mulheres na direção de cena, há algumas iniciativas práticas por parte do mercado. Como no caso de Jessica, da Paranoid, mais e mais produtoras têm anunciado a contratação de mulheres para a direção de cena, como a própria Paranoid, que trouxe a dupla Bel & Ju, além de contar com Mariana Youssef, uma das líderes do movimento Free the Bid, e Vera Egito. A Corazon Filmes contratou Beta Harada, que veio do mercado de agências para começar a dirigir, formando uma dupla com o Premier King e assim compondo uma rara dupla entre homem e mulher no mercado. A Cine tem Luiza Villaça e Cris Vida no casting.

Em comum, essas profissionais tiveram dificuldades no início de carreira para se inserir na direção. “Hoje, sinto que as pessoas já se acostumaram ao ver uma diretora num processo. Muitos se orgulham e muitos aspiravam por isto há algum tempo, como em alguns relatos de clientes e criativos. Eu me vejo bem mais confortável no mercado hoje”, afirma Cris, da Cine. “Acredito que temos muito ainda a acrescentar e estamos nesta construção unidas, o que torna a caminhada bem mais prazerosa”, completa.

“A luta foi e é diária. Os reflexos são dos mais explícitos aos mais camuflados, às vezes vem só numa discreta silenciada na voz, num tom diferente. A gente precisa ter sensibilidade para diagnosticar, para não deixar o movimento passar impune, tem muita situação traiçoeira. E precisamos também de muita inteligência e força para resistir a tudo isso. Acho que é por esse caminho que estamos conquistando melhorias”, diz Luiza Villaça, da Cine.

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Beta Harada, da Corazon Filmes, afirma que, desde o início de sua carreira, até meados de 2015, foi inspirada por homens no mercado publicitário. “Até porque, como eles “eram” o mercado, nós mulheres não tínhamos outra escolha. Naquele momento eu não senti dificuldade, apenas estava andando conforme o mercado. Até que encontrei uma mulher na liderança, que me mostrou um outro caminho e me inspirou a construir a minha carreira com mais confiança, com outro olhar. Ela me deu melhores condições de trabalho, meu salário passou a ter mais peso, e foi aí que descobri minha essência e meu talento”, diz a diretora. Com seu dupla Premier King, espera aproveitar diferenças pessoais e profissionais para ter diversidade na maneira de contar histórias. “Temos centenas de mulheres no mercado, que nos inspiram todos os dias. Com isso, percebemos que o olhar da mulher é parte da sociedade”.

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Quem também anunciou novidades recentemente foi a Iconoclast, que contratou a diretora de cena Rafa Carvalho, neste mês. Ela teve passagens anteriores por Saigon e Prodigo Films. “Quanto mais esse assunto for discutido e colocado em evidência, mais pessoas se conectarão a uma mudança que, no final, valoriza o trabalho, a troca de ideias e as próprias pessoas.  Quem ainda é resistente em acreditar que existe uma diferença, aos poucos vai percebendo e questionando o que está à sua volta, se existe equilíbrio, ou não, e o por quê disso”, afirma a profissional.

A diretora free lancer Manuela Berlanga fala que, antes da produção, vivenciou o mercado corporativo e, em ambas carreiras, sofreu dificuldades, preconceitos e situações de abuso. “Sinto que, aos poucos, os comportamentos de preconceito não estão mais sendo tolerados. Porém, ainda temos uma longa jornada pela frente. Sou a favor de sempre unir forças, feminina e masculina, numa visão humana. Onde, desde a sala de criação até a pós-produção, possam existir mais mulheres apresentando sua visão como criativa e especialista de sua área”, conclui.


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