Uma verdadeira band leader

Conheça a carreira de Christina Carvalho Pinto, uma das mais influentes publicitárias do Brasil

Formada em música pela PUC Campinas, foi por meio do irmão Luiz Antônio que Christina Carvalho Pinto foi parar “casualmente” no universo da publicidade. Primeira mulher a presidir a Young & Rubican na América Latina, a profissional foi eleita em 2004 e 2007 a mulher mais influente do Brasil no setor de marketing e publicidade pelos assinantes da Revista Forbes

Em 2005, foi laureada como um dos dez maiores empreendedores brasileiros, já em 2006 recebeu o título de profissional de maior significado para a criação publicitária no Brasil nos últimos 20 anos. Hoje, à frente do Grupo Full Jazz, Christina se diz grata à vida e a sua trajetória e comemora a evolução da sua consciência e o despertar de uma nova visão. Neste papo com a revista Propaganda, ela conta sobre sua carreira e revela seus projetos para o futuro. 

 

Início

Desde muito cedo Christina exerceu sua habilidade de escrita. Aos nove anos já tinha ganhado prêmios pela publicação de contos de sua autoria. Mais tarde, um de seus irmãos sugeriu que ela unisse o dom da palavra ao da música, área de sua formação.

 

”Meu irmão me perguntou por que eu não ia trabalhar em uma agência de propaganda. Lá, eu teria a oportunidade de criar tanto a parte de texto como os sons, pois faria peças para a televisão e o rádio, e eu achei aquilo interessante”, conta. 

 

Assim, ela conseguiu seu primeiro estágio na P.A Nascimento e, na sequência, foi para a Thompson como redatora júnior. De lá, rumou para a Salles no, Rio de Janeiro, e voltou a São Paulo como redatora sênior da agência. Em seguida, Christina foi para a CBDA onde, aos 24 anos, se tornou diretora de criação.

Mais tarde, na mesma função, desembarcou na McCann, época em que teve seu primeiro filho, João Francisco. Em 1978, Christina optou por se afastar de suas funções na publicidade para viver a maternidade.

 

“Eu tive um desejo muito grande de cuidar dele e queria completar a faculdade de música. Dediquei dois anos a ficar com ele em tempo integral. Eu ia com o João para Campinas aos sábados e fazia 14 horas de aula de música”, lembra Christina, que tem formação em piano e também é bailarina.

 

Em 1981, com o nascimento de Renan, seu segundo filho, optou por se afastar por oito meses do dia a dia da publicidade. “Retornei por um convite da Siboney, que se tornou a FCB, e lá fui diretora de criação. Fazia par com o diretor de arte argentino Oscar Orea e, juntos, ganhamos prêmios que não sabíamos mais onde colocar. Fomos uma dupla muito bem-sucedida durante os quatro anos e meio de FCB”, comenta.  

 

Em 1983 nasceu a caçula Diva, momento em que Christina já havia voltado à CBDA como vice-presidente de criação. A agência estava em negociação com a Thompson. “Havia uma exigência nesse processo que a CBDA desse um salto criativo. Eu tive uma sorte imensa porque sempre peguei equipes que estavam em um momento
de pouco brilho ou pouca visibilidade. A minha trajetória foi assim ao longo dos anos. Eu percebi que ali havia talento e gente que precisasse ser ajudada, que criasse junto, porque isso é muito importante. Eu não concebo um diretor de criação que não seja ele próprio um grande criativo”, vaticina.   

 

Para ela, a missão desse profissional é criar junto e participar. Não somente dar grandes ideias, mas descobrir quando uma frase dita com timidez pode conter algo incrível que a pessoa não percebeu.

Norton

Após dois anos na CBDA, o redator e parceiro Nelson Porto, com quem a Christina duplou por 12 anos em diferentes ambientes, chamou a sua atenção para uma edição especial do Asterisco, que mais tarde viria a se chamar PROPMARK, sobre os 40 anos da Norton.

 

A matéria trazia entrevistas com os líderes de todas as áreas e Porto notou que o encarte não dava destaque a ninguém da área criativa. “Estou surpreso, Chris, não tem entrevista com diretor de criação, acho que a Norton está sozinha e você precisa assumir essa vaga, ele me disse.”

 

“Eu nunca tinha visto o Geraldo Alonso [fundador e presidente da Norton] e o Porto me falou que eu precisava conhecê-lo porque uma agência daquele porte tinha de ter uma direção de criação ativa.”

 

Tempos antes, Christina havia dado uma palestra em um evento e o então vice-presidente de Mídia da Norton, José Francisco Queiroz, escreveu um bilhete após sua fala dizendo que a palestra havia mudado sua visão da profissão. Lembrando desse episódio, ela mandou uma carta a Queiroz pedindo um encontro e daí saiu o convite para integrar a equipe da agência.

 

Mas nem tudo foram flores nessa movimentação. Quando chegou para assumir a presidência nacional de criação da Norton, encontrou Geraldo Alonso Filho pálido. O vice-presidente da agência à época explicou que havia um problema. Ele não tinha tido coragem, conta Christina, de contar ao seu pai que havia contratado uma mulher.

 

“Quem conheceu o Alonso sabe que ele era um cara
de temperamento vulcânico e o Filho me avisou que havia contado para ele sobre minha contratação cinco minutos antes da minha chegada e o pai estava uma fera. Ele me confidenciou que Alonso o indagou irado se no Brasil não havia um macho para ocupar este papel”, lembra, Christina.

 

Parte da mítica em torno da figura de Alonso dá conta de que as pessoas o chamavam de “Doutor Geraldo”. Vinda de uma família de personalidade forte, Christina enfrentou mais essa. “O fato de dizerem para mim que alguém teve um chilique ou está em estado de fúria não me faz perder a linha. Eu não tenho medo de gente. Mas estavam todos apavorados porque ‘Doutor Geraldo’ estava buscando um macho para o cargo. Pois bem, entrei na sala dele, que era gigante, e disse: oi, Geraldo, tudo bem?”, se diverte. Ali, segundo Christina, nasceu uma longa e sólida amizade.

 

Young & Rubican

Em março de 1989, Christina foi convidada por Nelson Homem de Melo, chairman da Young & Rubican na América Latina, para assumir a Impact, uma segunda agência da Y&R no Brasil. “Naquele momento, os clientes internacionais estavam ansiosos para que o país importasse a forma de fazer planejamento estratégico”, lembra Christina.

 

A Impact iniciou seus trabalhos com dois grandes clientes: Dupont e Colgate-Palmolive. Seis meses depois do lançamento houve uma ruptura entre a Y&R e os sócios locais da agência, e Christina assumiu a presidência da Young & Rubican no Brasil, incorporando os clientes da Impact.

 

À frente da Y&R, a agência conquistou Cannes e ganhou também outros importantes prêmios. “Foi uma experiencia maravilhosa, foram quase oito anos de um aprendizado de todos nós, que nos unimos em uma grande equipe trabalhando com metas e multiplicamos o faturamento e os prêmios. As avaliações dos clientes eram boas”, lembra.

 

“Nós éramos um case no mundo todo. Isso mostrou para mim que paixão, atenção e cuidado valem muito na hora de administrar uma empresa. E eu tive de aprender a gerir uma instituição de grande porte colocando amor, atenção e cuidado”, complementa Christina, que chegou ao cargo de vice-chairman da Y&R na América Latina. Na época, 26 operações ficaram sob a responsabilidade da profissional.

 

“Na Y&R foi onde eu comecei o meu grande aprendizado como estrategista de marca e fui me aprofundando. Hoje, infelizmente, sobraram poucos destes profissionais no mercado. E, talvez por isso, estamos percebendo que grandes marcas estão doentes”, reflete.

 

Full Jazz

Esse diagnóstico sobre a fragilidade das reputações levou Christina a fundar a Full Jazz, dividindo a presidência com Luiz Lobo. Segundo a criativa, hoje, a agência vem sendo uma “central de terapia de cura de marcas”.

 

“Muitas vezes este é um trabalho confidencial. A corporação nos procura, nos entrega a marca para que a gente entenda o que está acontecendo com ela, fazemos o projeto de branding e devolvemos um caminho para onde ela deve ir, quais devem ser suas linguagens, focos e uma nova proposta estratégica. Às vezes a agência que é responsável por aquela marca continua sendo, porque vai implementar as nossas soluções”, pondera.

 

Christina lembra que na fase da Y&R precisou se ausentar muitas vezes e essas viagens acabaram afastando a profissional da rotina dos três filhos. “Há 22 anos eu sonhei que regia uma orquestra. E comecei a sonhar que eu não queria mais ser essa maestra. Eu queria ser band leader
em uma banda de jazz e foi assim que nasceu a agência, do desejo de poder sair dos megatemas internacionais para voltar a fazer o que gosto, que é estratégia para marcas”, defende.

 

O grupo começou com a Full Jazz, depois veio a Conteúdos com Conteúdo e a The Key, criada por João Francisco Santos, que trabalha com o preparo de novas empresas para a economia.

 

A criativa fala que é grata à vida e a sua trajetória, mas que o mais importante foi o seu despertar para uma nova visão. “Todos nós temos uma responsabilidade gigantesca sobre cada imagem, gesto, proposta, porque podemos aprisionar mentes ou libertá-las por meio da nossa estratégia e nossa criatividade. Fui percebendo que o profissional do setor de comunicação precisa despertar. A nossa interferência sobre mentes e o poder das nossas ideias precisa passar por grandes reflexões. É obrigatório que corporações, marcas e nós profissionais da área pensemos sobre o impacto daquilo que estamos comunicando sobre a mente e a emoção dos seres humanos”, reflete.

 

Christina dá pistas sobre o futuro e fala que está escrevendo sua autobiografia e quer retomar a escrita de seus contos. “O fim ainda está muito longe. Aguarde-me”, finaliza.

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