"A agência não precisa mudar, ela precisa se transformar"

A Artplan completa 50 anos em 2017, com muitos motivos para comemorar. Além da conquista de novas contas, como Coca-Cola, Melitta, Beach Park, Etna e Grupo Campari, a agência foi eleita pela Great Place to Work como uma das melhores empresas para se trabalhar. A Artplan, que foi comprada por Roberto Medina e hoje possui cinco empresas no grupo, também é responsável por um dos maiores festivais de música do mundo, o Rock in Rio. Nesta entrevista, Rodolfo Medina, que assumiu a presidência em 2006 e é filho de Roberto, revela os desafios que a crise impõe e o momento de transformação da comunicação.

Marcus Hausser

Rodolfo Medina é presidente da Artplan

Os últimos anos foram de muitas aquisições pela Artplan, com a chegada de novas contas e o reconhecimento do mercado. A que você atribui essas conquistas?

Construímos uma agência com um DNA de pensar comunicação de forma mais abrangente do que a comunicação tradicional simplesmente. E o mercado, independentemente da geração de conteúdo digital, já vem a bastante tempo caminhando nessa direção. Hoje, temos um grupo muito multidisciplinar, com uma área de geração de conteúdo poderosa, talvez a mais estruturada de todas as agências tradicionais. Então, chegar aos 50 anos discutindo essas transformações, é importante. Queremos ser um dos players que vão sugerir novos debates e caminhos, para que a ideia não fique restrita a um só meio. Somos uma agência sempre Beta. Estamos sempre testando o novo. Temos de estar prontos para o que vem pela frente. O mercado tem o megadesafio de se reinventar, e a gente quer estar na frente deste debate. Estamos em um momento de crescimento, com a conquista de diversas contas, mas sempre com o pensamento de comunicação integrada. Queremos dar um passo à frente e ser um parceiro integrador dos clientes, pois ele precisa de alguém que possa ajudá-lo a coordenar essa quantidade de parceiros e fornecedores, que cresce a cada dia. As agências precisam liderar isso, e é onde vamos nos posicionar.

Você assumiu a presidência em 2006, então, essa é a sua primeira grande crise de mercado. Qual foi o momento mais desafiador até agora?

A crise como um todo é desafiadora. Mas há duas crises: uma do mercado e outra do nosso mercado de comunicação. É importante debater todos esses questionamentos. Em 2013, começamos um trabalho na agência que era de pensar em como a Artplan estaria em 2018, e traçamos metas claras para todos os funcionários da agência. Não tínhamos noção do tamanho da crise que viria, mas chegamos até aqui muito preparados, pois a agência estava mais madura para enfrentar qualquer tipo de momento. Estamos preparando a agência para o futuro. Já começamos a pensar e tentar entender como será a agência em 2022. Provavelmente, será diferente, mas não no ‘core business’ de entregar ideias poderosas para os nossos clientes, mas, sim, de pensar em como fazer a diferença no negócio. Pensar em quais serão os novos formatos, plataformas e na forma de relacionamento. A agência não precisa mudar, ela precisa se transformar. E este é um momento interessante.

Há três anos a Artplan estabeleceu a meta, até 2018, de estar entre as dez agências mais desejadas por profissionais do mercado e anunciantes. Como anda esse plano?

Não chegamos lá ainda, mas estamos no caminho. Ainda falta um pouco para 2018. Conquistamos com os profissionais do mercado um reconhecimento que é superinteressante. Há seis anos, inscrevemos nossa agência no Great Place to Work, e há três edições temos a Artplan como uma das melhores para se trabalhar. Esta é uma sinalização de que o trabalho que fizemos com pessoas lá atrás, na Academia Corporativa (projeto realizado dentro da Artplan), investindo na formação dos nossos profissionais, está gerando um resultado positivo. Estamos caminhando para a direção em que queremos estar. Já as metas para 2022, ainda estamos construindo com a equipe.

Em um mercado dominado por agências multinacionais, a Artplan é uma das maiores nacionais. Quais são os prós e contras?

Neste momento díficil só vejo prós. Temos velocidade para propor novos caminhos e se adaptar, eventualmente, a decisões que precisamos tomar e não sejam tão corretas assim. Num momento em que precisamos arriscar, temos muita velocidade para testar. A vantagem de fazer parte de um grupo multinacional é que você consegue aproveitar as experiências de outras empresas do grupo, geralmente de fora do Brasil, para acelerar alguns processos. Mas, como hoje a comunicação é grande para todo mundo, a gente consegue ter acesso a essas informações sem necessariamente ter as amarras de uma multinacional.

Existe a possibilidade de fazer parte de um grupo internacional? Já houve propostas?

A Artplan sempre estará aberta a conversas, desde que seja um negócio bom para os nossos profissionais e para os nossos clientes. Ao longo desta história de 50 anos, já fomos abordados algumas vezes. Temos um jeito muito nosso de fazer as coisas. Queremos ter a liderança, acreditamos na forma que trabalhamos. Então, não temos nada contra, mas precisa ser uma proposta de valor para a cadeia e para o Grupo Artplan como um todo. E que seja de fato poderosa, mas ainda não surgiu esse momento.

Num mercado em constante transformação, como fazer a diferença? Onde você busca inspiração?

A geração que vem agora é completamente diferente da geração que está aí hoje. Então, procuramos buscar inspiração nas novas gerações e tentamos sempre nos conectar a tudo que existe de novo em termos de inovação, de startups, para estar mais próximo deste mundo que vem se transformando. Também nos atualizamos na Academia Corporativa da agência. Isso faz com que a agência, embora tenha sede no Rio de Janeiro e escritório em São Paulo, seja hoje a terceira mais bem avaliada pelo mercado.

O Grupo Artplan segue crescendo, já conta com cinco empresas, como dar conta de tudo? Em que momento as atribulações se cruzam?

Hoje as empresas Artplan, Rock in Rio, Dream Factory, Relevance e Outra Coisa são complementares. Na verdade, sempre que investimos num novo projeto tentamos entender como aquilo vai contribuir para o todo. Não é muito complicado. De alguma forma todas contribuem para os negócios de nossos clientes e são entregas complementares. Embora sejam empresas independentes.

O Rock in Rio, além de ser um dos maiores festivais de música do mundo, também é uma grande plataforma de comunicação?

O Rock in Rio nasceu em 1985 já como uma plataforma de comunicação mais alargada. Tudo isso, aliado à vontade do Roberto Medina em criar alguma coisa diferente para os jovens da época utilizando um dos clientes da agência. O que fizemos agora foi ampliar essa plataforma de comunicação. As marcas que entram como patrocinadoras e apoiadoras do projeto aproveitam a exposição por muito mais tempo do que apenas os sete dias de evento. Na verdade, a grande mágica do projeto é que conseguimos ter um ano de comunicação que termina com sete dias de festa. É isto que estamos construindo ao longo deste tempo.

O público que vai ao festival já espera brincar e interagir com as marcas?

O tempo todo. As experiências com marcas, estandes e brindes são supercomplementares na Cidade do Rock. Aquilo tudo faz a experiência do Rock in Rio. Estimulamos as marcas a investirem muito para que elas consigam interagir e criar novos momentos de engajamento. Cada marca tem o seu momento de experiência, o seu contato com o público preservado e a sua geração de conteúdo. Isso faz parte da entrega do Rock in Rio, tanto para as marcas quanto para o público. Este ano nós teremos o Rock in Rio mais importante da história, com muita geração de conteúdo. Muita coisa interessante vai acontecer ao mesmo tempo. Vai ser uma experiência interessante, talvez, nunca feita no mundo.

E por que este será o Rock in Rio mais importante da história?

Pela primeira vez estamos ocupando um novo espaço. Deixamos o Parque dos Atletas e passamos a assumir um pedaço do Parque Olímpico. Estamos falando de um tamanho duas vezes maior em área, o que nos permitiu prezar ainda mais pela experiência do público lá dentro. Além disso, temos o maior line up que o Rock in Rio já teve e uma série de novidades na Cidade do Rock, como, por exemplo, duas rocks street, um espaço de games, um palco só com influenciadores digitais e uma área gourmet. O público terá muitas experiências em um evento que começa às 14h e vai até as 4h da manhã. Nossa expectativa é ter o maior Rock in Rio de todos os tempos. Pular para outro patamar em projetos similares, tanto no Brasil como no mundo. 

Como tem sido a experiência do Rock in Rio em outros países?

Superdesafiadora. Em Portugal estamos desde 2004 com uma operação muito consolidada. Durante seis anos fizemos três edições na Espanha, que foram sensacionais. Em 2015, fizemos a nossa primeira edição nos Estados Unidos e foi um grande desafio só pelo fato de ter entrado naquele mercado. O desafio de comunicação também foi grande, pois ela é muito pulverizada. Foi muito boa experiência da primeira edição, mas temos muito o que ajustar na operação. Como novidade, estamos discutindo a hipótese de realizar o Rock in Rio em algum país da América Latina.

Quais são os próximos passos da Artplan?

Queremos liderar a discussão para entender melhor como será a relação do cliente com a agência no futuro. Pretendemos entender como, eventualmente, as agências perderam espaço e relevância. Entregamos valor e somos um grande gerador de negócios para os clientes. É assim que temos de ser vistos. Queremos ajudar essa conversa, pois o setor está em transformação e precisamos de mais transparência das partes.