A volta do Canecão

Nestes dias terríveis que estamos vivendo, neste clima de expectativa, de discussões sobre passado e futuro do país, qual a importância da notícia de que o Canecão poderá ser reaberto? Imensa, maior do que podemos imaginar. É preciso lembrar que não houve no Brasil uma casa de espetáculos como o Canecão. Palco consagrador de artistas, programa obrigatório para turistas, era o sonho de consumo de artistas e público. Enorme, permitia a existência de preços diferenciados, atendendo a diversos tipos de plateia. No Canecão, era possível sentar-se à mesa na beira do palco e aproveitar de um serviço completo de buffet, ou empoleirar-se nas arquibancadas. Apesar do tamanho, as distâncias não afastavam os artistas do público e, mesmo nos poleiros mais baratos, havia uma sensação de proximidade. Tirando um imenso painel de Ziraldo, o Canecão não exibia luxos, pelo contrário, e o som exigia cuidados especiais, pois a acústica não chegava a ser uma obra-prima de engenharia. O Canecão, como o nome indica, começou com uma enorme cervejaria que também apresentava espetáculos. Mas, com o tempo, foi se transformando num templo. Ser o espetáculo principal da programação do Canecão era a prova definitiva da importância do artista. O verdadeiro sonho.

Empresas organizavam caravanas de turistas para assistir aos shows dos artistas mais consagrados. Perguntar “quem está no Canecão?” era parte da preparação de uma viagem ao Rio. Um galpão, se quisermos ser exigentes, um imenso galpão com um palco enorme e uma infraestrutura meio precária. Mas figurar no letreiro luminoso do Canecão foi a prova de que o artista tinha chegado lá. Estar no Canecão era um sonho para os do palco ou da plateia. No entanto, um drama se desenrolava na ribalta, longe das cortinas. Não sei os detalhes e confesso que a maioria dos fatos sei por pesquisa. Mas ele foi construído num terreno que pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro. E o empresário que administrava a casa, o já falecido Mario Priolli, segundo o que pude ler na internet, não era o mais fanático dos pagadores. Dessa forma, dizem os registros, acumulou-se uma dívida. A UFRJ retomou a casa em outubro de 2010 com as promessas de transformar o local em um espaço democrático para as artes. Não faltaram críticas ao elitismo dos espetáculos até então apresentados. A verdade é que, enquanto se fechavam as cortinas, se desenrolava outro drama nos bastidores. Um triste roteiro sem plateia, com um desfile bizarro de política, mesquinhez e demagogia barata.

E o Canecão virou palco para baixa política e abrigo para usuários de drogas, foi saqueado em tudo que pudesse ter algum valor, foi pichado, o mato cresceu e a estrutura corroída. Semana passada, o Canecão foi destombado, seja lá o que isso signifique. Até o ponto que minha ignorância permite ir, entendi que vai ser possível haver nova licitação para que uma empresa reconstrua a casa e toque o negócio, dando contrapartidas para a universidade. Claro que vozes já se levantam contra quem quer que seja que se proponha a administrar o local. Li na internet pessoas achando que o Canecão servirá para “enriquecer alguns”, em prejuízo do interesse público. Evidentemente estamos diante de dias difíceis. Mas é preciso lembrar que estamos falando de um patrimônio de valor incalculável. Não digo o terreno, nem as ruínas. Mas o imenso valor do nome e da localização. Se as coisas forem feitas com rapidez (rapidez, não açodamento), será possível se aproveitar da herança e da mística do Canecão. Dizem que o painel do Ziraldo ainda existe. Eu não tenho dúvidas que basta abrir novamente as portas para o público voltar.

Milhares de pessoas vão se lembrar dos momentos que passaram no velho Canecão. Das músicas que cantaram, dos aplausos, do clima de excitação e fantasia que só esses espaços mágicos possuem. O burburinho da plateia entrando, a afinação dos instrumentos, a expectativa do início do espetáculo, um arrepio unindo artistas e espectadores que comungam o sentimento de que viverão um momento mágico. O aplauso final que é mais do que o reconhecimento ao artista, mas também uma celebração. A notícia sobre a possível volta do Canecão é uma das mais importantes nestes tempos. É como a flor que nasceu no asfalto, como diria Drummond. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Lula Vieira é publicitário, diretor do Grupo Mesa e da Approach Comunicação, radialista, escritor, editor e professor
lulavieira.luvi@gmail.com