‘Criatividade não é um produto de exportação. É um produto de origem’, diz Sergio Gordilho

Sergio Gordilho, da Africa Creatve, fala sobre a influência da arquitetura em seu processo criativo e relembra os ensinamentos da geração baiana para a publicidade brasileira

ÍNDICE

À frente da Africa Creative, uma das agências mais premiadas do Brasil e referência mundial em criatividade, Sergio Gordilho construiu uma trajetória marcada pela defesa de ideias capazes de gerar impacto cultural e resultados de negócio. Nesta entrevista, ele fala sobre a influência da arquitetura em seu processo criativo, relembra os ensinamentos da geração baiana que transformou a publicidade brasileira, analisa o papel da criatividade em um mercado cada vez mais orientado por dados e compartilha sua visão sobre inteligência artificial, liderança criativa e a expansão internacional da agência. Em uma conversa repleta de reflexões, Gordilho, que comanda a Africa junto com Marcio Santoro, reforça uma convicção que guia sua carreira: marcas memoráveis são construídas por ideias que conseguem ocupar um lugar na cultura e no coração das pessoas.

De que forma a arquitetura e a arte influenciam sua criatividade na construção de marcas? 
A arquitetura foi a minha primeira escola de criatividade. Ela me ensinou que criar não é desenhar formas. É desenhar comportamento. Dos grandes mestres, aprendi a observar com outros olhos. Le Corbusier mostrou que simplicidade não é ausência de complexidade. É clareza. Lina Bo Bardi mostrou que design não existe para ser admirado. Existe para ser vivido. Niemeyer mostrou que identidade nasce quando um projeto tem sotaque. Zaha Hadid provou que desafiar a lógica pode ser a melhor forma de encontrar uma nova função. Norman Foster lembrou que a melhor tecnologia é aquela que desaparece e deixa apenas a experiência. A arquitetura projeta a maneira como as pessoas vivem um espaço. A publicidade projeta a maneira como as pessoas vivem uma marca. Talvez por isso eu nunca tenha separado uma da outra. As duas transformam função em emoção. As duas dão forma ao invisível. A criatividade bebe da estética, mas nunca é estática. Ela acompanha pessoas, culturas e comportamentos. É viva porque vive nas pessoas. No fim, a medida de sucesso é a mesma: quando alguém deixa um edifício ou uma campanha carregando uma sensação impossível de explicar, mas impossível de esquecer. Porque grandes arquitetos não desenham prédios. Grandes arquitetos desenham lembranças. Os grandes criativos fazem exatamente a mesma coisa.

Você é contemporâneo de uma geração baiana que marcou época na publicidade, como Nizan Guanaes, Duda Mendonça e Sérgio Amado. Como essa geração influenciou sua trajetória e, na sua visão, a criatividade brasileira tem o tempero baiano? 
A Bahia produz histórias antes de produzir publicidade. Na terra de Jorge Amado, narrativa é patrimônio. Foi ali que vi e aprendi com meu mestre, Nizan, a transformar sotaque em linguagem, ideia em negócio e transpiração em inspiração. Ao lado dele, uma geração extraordinária — Duda Mendonça, Sérgio Amado, Luiz Gonzaga, Valente, Geraldão, Andrea Siqueira, Mariana Sá, Gustavo Sarquis e tantos outros — mostrou que a criatividade brasileira não precisava imitar ninguém para conquistar o mundo. Eles provaram que originalidade não nasce da vontade de parecer global. Nasce da coragem de parecer você mesmo. Talvez esse seja o tempero baiano. A Bahia nunca exportou criatividade. Exportou identidade. Porque criatividade não é um produto de exportação. É um produto de origem.

A ideia na propaganda ainda emociona e mobiliza o brasileiro ou o mercado se tornou refém de métricas, performance e algoritmos?
Toda vez que a publicidade esquece das pessoas para agradar aos algoritmos, ela fica mais eficiente e menos relevante. Métricas mostram o que aconteceu. Ideias fazem acontecer. Performance captura demanda. Criatividade cria desejo. Algoritmos distribuem conteúdo. Emoção distribui cultura. A tecnologia mudou radicalmente a forma como uma marca chega até alguém. Mas não mudou a razão pela qual ela permanece. No fim, as pessoas ainda compram com a cabeça, justificam com os dados e lembram com o coração.

Sendo uma das agências brasileiras mais premiadas da história do Cannes Lions, qual é o DNA da Africa Creative e quais pilares sustentam sua consistência criativa? 
A Africa gosta de ideias mal-educadas. Daquelas que entram na sua cabeça sem pedir licença. Mas ideias assim não aparecem por acaso. Elas crescem em cultura. Criatividade não se compra. Cultiva-se todos os dias. Pinguins não voam. Agências sem cultura criativa também não. Por isso, nunca caímos na armadilha de acreditar na criatividade como um departamento. Sempre a tratamos como um comportamento. Nossa cultura cabe em poucas palavras: ambição criativa global, tesão em fazer acontecer e obsessão pelo negócio do cliente. O resto é consequência. Porque uma agência não é o portfólio que apresenta, e sim as pessoas que revela. Nunca perseguimos tendências. Perseguimos relevância. Campanhas ocupam espaço na mídia. Ideias ocupam espaço na cultura. E, quando uma ideia ocupa a cultura, ela continua trabalhando muito depois que a campanha termina.

Leia a íntegra da matéria na edição impressa do dia 22 de junho.

Imagem do Topo: Ale Oliveira

Alê Oliveira
Alê Oliveira
Editor de fotografia
aleoliveira@propmark.com.br

NOTÍCIAS MAIS LIDAS

publicidade

publicidade

Inscreva-se para receber as últimas atulizações

Fique por dentro das novidades do mercado publicitário

Leia também