Agentes de IA ampliam a disputa das marcas por atenção entre consumidores

Fernando Migrone, VP de marketing da Zendesk, avalia que inteligência artificial já possibilita experiências verdadeiramente personalizadas

A inteligência artificial chega a 2026 consolidada como infraestrutura estratégica. Se nos últimos anos a discussão esteve centrada em produtividade e automação, agora o foco se desloca para experiência, posicionamento e governança. Essa leitura é reforçada pelo ‘CX Trends 2026’, estudo global da Zendesk que analisa expectativas de consumidores e líderes de experiência do cliente, com recortes específicos para o Brasil e a América Latina.

O relatório mostra que 75% dos consumidores latino-americanos já esperam interações sofisticadas e personalizadas, enquanto 80% dos brasileiros consideram personalização e contexto uma expectativa básica.

Além disso, 82% afirmam sentir frustração ao ter de repetir informações durante um atendimento. No Brasil, onde 57% dos consumidores já utilizam plataformas baseadas em IA, segundo a consultoria Oliver Wyman, o desafio deixa de ser adoção tecnológica e passa a ser maturidade na aplicação. Para Fernando Migrone, VP de marketing da Zendesk na América Latina, 2026 consolida uma mudança estrutural no papel da IA.

Fernando Migrone, VP de marketing da Zendesk | Imagem: divulgação

“Em 2026, a inteligência artificial evolui de uma ferramenta meramente operacional para um motor essencial do posicionamento e da diferenciação das marcas. A IA com memória avançada, que une dados históricos e contexto em tempo real, possibilita experiências verdadeiramente personalizadas, uma demanda crescente dos consumidores, especialmente na América Latina, onde 75% deles já esperam essa sofisticação, segundo o nosso estudo ‘CX Trends 2026’”, explica ele.

Segundo o executivo, a transformação vai além da eficiência. “Essa personalização profunda transforma o relacionamento, indo além do atendimento reativo para um modelo proativo e preditivo, que entrega valor e resolve problemas antes mesmo que o cliente perceba”, diz.

Ele ressalta ainda que transparência passa a ser componente central da estratégia. “Além disso, a transparência do uso da IA e a clareza nas decisões automatizadas tornaram-se não apenas opções, e sim fundamentos para a construção de confiança e lealdade”, completa.

A mudança também se reflete na arquitetura do atendimento. A transição de chatbots tradicionais para agentes de IA autônomos é apontada como uma das principais transformações em curso.

Migrone explica que a evolução dos chatbots para agentes de IA autônomos é uma das transformações mais disruptivas em CX. Segundo ele, “enquanto os chatbots tradicionais oferecem respostas predefinidas limitadas, os agentes de IA de última geração são capazes de ‘ver, ouvir, ler e lembrar’, ou seja, atuam multimodalmente e com memória contextual, permitindo uma conversa contínua e personalizada”.

“Na prática, agentes de IA já resolvem mais de 80% das interações em organizações maduras em CX, liberando os agentes humanos para focar em problemas complexos que demandam empatia”, detalha. Para o executivo, o papel da IA é complementar. “A Zendesk vê esses agentes atuando como copilotos inteligentes integrados às equipes, ampliando a escala sem perder a consistência da linguagem e a identidade da marca”, afirma.

Se no ambiente corporativo os agentes já analisam dados, tomam decisões e executam ações dentro de CRMs e plataformas de atendimento, iniciativas como a Moltbook ampliam essa lógica para além das empresas. A Moltbook é uma rede social criada para permitir a interação exclusiva entre agentes de inteligência artificial. Nela, diferentes IAs mantêm conversas públicas entre si, trocando informações, formulando respostas e ajustando argumentos de forma autônoma, enquanto usuários humanos apenas observam as interações, sem poder participar.

O experimento simboliza uma nova etapa da autonomia algorítmica, ao deslocar a IA do papel de ferramenta de resposta para o de agente que opera em ecossistemas próprios de troca e decisão. Esse avanço amplia o debate sobre ética, segurança, conexão e governança — temas que já pressionam marcas no ambiente corporativo.

Segundo pesquisa Ipsos realizada a pedido do Google, 79% dos brasileiros já utilizam IA como apoio ao aprendizado e 71% afirmam ter usado chatbots de IA. Para Migrone, quanto maior a autonomia, maior a exigência por métricas adequadas. “Estamos começando a ver também métricas relacionadas à transparência e confiança do cliente, vindas a partir do feedback direto dos clientes sobre a clareza das decisões tomadas e sua satisfação com as interações automatizadas”, alerta.

Além do tempo médio de atendimento, ganham espaço indicadores como taxa de sucesso da automação, continuidade de contexto e análises orientadas por linguagem natural, as chamadas promptable analytics.

Leia a íntegra da reportagem na edição impressa de 23 de fevereiro.