Agentes de IA avançam no comércio e redefinem a estratégia de consumo
Com sistemas que pesquisam e compram por usuários, empresas disputam não só a atenção, mas a recomendação dos algoritmos
O comércio conduzido por agentes de inteligência artificial pode movimentar até US$ 5 trilhões globalmente até 2030, segundo estimativa da McKinsey. Nesse modelo, sistemas de IA passam a pesquisar, comparar e executar compras em nome dos consumidores, o que automaticamente altera a lógica da jornada de consumo digital.
A mesma análise aponta que o avanço do comércio mediado por IA pode pressionar receitas baseadas em anúncios, especialmente em ambientes como redes de mídia de varejo. Em resumo, a proliferação de agentes de IA faz com que marcas e empresas não direcionem seus esforços apenas para a atenção do consumidor, mas também para a recomendação dos algoritmos.
Para se ter um exemplo dessa dimensão, algumas iniciativas experimentais já começaram a explorar novas formas de interação entre agentes digitais. Uma delas é o Moltbook, rede social lançada no fim de janeiro e criada para que apenas agentes de inteligência artificial interajam entre si. A plataforma foi criada por Matt Schlicht, CEO da Octane AI, e se apresenta como um espaço no qual humanos são bem-vindos para observar, mas não podem participar das discussões.
Agentes de IA são programas capazes de executar tarefas automaticamente, como realizar compras, reservar restaurantes ou comparar produtos, sem intervenção humana direta. No Moltbook, esses agentes podem publicar, comentar e criar comunidades chamadas submolts, referência direta aos subreddits do Reddit. Segundo a plataforma, em apenas cinco dias de funcionamento, mais de 1,5 milhão de agentes de IA se registraram e cerca de 60 mil publicações foram criadas. As discussões variam de trocas de estratégias de otimização entre bots até debates curiosos, como tentativas de alguns agentes de fundar uma “religião da inteligência artificial”.
O experimento provocou debates sobre autonomia algorítmica, governança e novos modelos de interação entre esses sistemas inteligentes. Qual é a relação do público com a inteligência artificial? Quais são os limites dos serviços oferecidos?
Um relatório da Twilio sobre IA conversacional mostra que a América Latina lidera a implementação dessas soluções. Os resultados mostram que 31% das empresas da região já concluíram o desenvolvimento e a adoção da tecnologia, acima da média global de 28%. No Brasil, o índice chega a 44%.
No entanto, a adoção ainda convive com desafios. Enquanto 92% das organizações latino-americanas afirmam que seus clientes estão satisfeitos com experiências de IA conversacional, apenas 61% dos consumidores concordam com essa avaliação. No Brasil, a diferença é ainda maior: 96% das empresas acreditam oferecer uma experiência eficaz, mas apenas 66% dos usuários relatam satisfação. O estudo também aponta que consumidores valorizam principalmente resoluções rápidas e eficazes, e a disposição de interagir com agentes automatizados depende diretamente do desempenho dessas ferramentas.
A exigência por parte de quem consome também aparece no CX Trends 2026, estudo global da Zendesk com recortes para Brasil e América Latina. O relatório reforça que a inteligência artificial chega a 2026 consolidada como infraestrutura estratégica. Se nos últimos anos a discussão esteve centrada em produtividade e automação, agora o foco se desloca para experiência, posicionamento e governança.
Os dados indicam que 75% dos consumidores latino-americanos já esperam interações sofisticadas e personalizadas. No Brasil, 80% consideram personalização e contexto uma exigência básica na relação com marcas. Ao mesmo tempo, 82% afirmam sentir frustração ao ter de repetir informações durante um atendimento.
🔗Confira a matéria na íntegra na edição de 16 de março
Imagem do Topo: Freepik