Amy Webb: “Será um ano muito desconfortável. Esteja preparado”

Futurista apresentou o ‘Converge outcome 2026’

A futurista e fundadora do Future Today Institute, Amy Webb, apresentou o painel “Emerging tech trend report” na manhã deste sábado (14), terceiro dia do South by Southwest (SXSW), que ocorre em Austin, no Texas, até 18 de março de 2026, com mais de 600 sessões.

Ela começou decretando a morte dos antigos relatórios de tendências sobre tecnologia. Embora muitos documentos tenham tentado dar sentido ao futuro dos negócios, tornando os profissionais mais criativos e eficientes, eles desconsideravam a convergência de possibilidades ditadas pela tecnologia, com “múltiplos ambientes potencializando um ao outro, redistribuindo poder e valor”, alerta Amy, que lançou o O ‘Converge outcome 2026’, um guia para acelerar e redefinir negócios. “Será um ano muito desconfortável. Esteja preparado”, avisa.

A convergência analisa múltiplas tendências, forças, incertezas e catalisadores, que se cruzam e interagem para criar uma combinação mais impactante do que elementos individualmente estudados.

No rastro das novas tempestades de inovação, está o que Amy chama de “creative destruction”, processo no qual novas tecnologias, negócios e mercados continuamente deslocam modelos já existentes, criando novos produtos, serviços, métodos de produção e vendas, trabalhos e empresas, em detrimento de antigos sistemas. Ela utilizou o exemplo da Kodak, atropelada pelo surgimento da fotografia digital.

“Os relatórios de tendências diziam ‘o que muda hoje’. Já as projeções convergentes apontam o que será inevitável amanhã”, compara. Amy aponta o fenômeno da “living intelligence”, que emerge quando a inteligência artificial, sensores avançados e a bioengenharia se fundem em um sistema bidirecional.

Os dados fluem tanto para dentro quanto para fora dos sistemas, criando redes adaptativas que aprendem”. “Pela primeira vez na história, alguns humanos serão melhores que outros. Estamos tentando navegar por essa tempestade com confiança”, comenta.

Amy Webb: “Pela primeira vez na história, alguns humanos serão melhores que outros. Estamos tentando navegar por essa tempestade com confiança” (Divulgação)

O ‘unlimited labor’ é outra sinalização endereçada pela era das máquinas autônomas e agentes de IA. China e Japão avançam com robôs que realizam e tomam decisões como humanos. “A próxima internet não será feita por você, mas por agentes”. O uso de sistemas automatizados para trabalho - em escala, sob demanda e sem a participação de humanos - deve remover os limites de prazo, atenção e fadiga.

Surge a produção automatizada, onde fábricas ou operações industriais totalmente automatizadas funcionam sem intervenção humana direta, muitas vezes 24 horas por dia. É o chamado “lights-out industrial”, que vem da ideia de que uma planta fabril poderia operar mesmo com as luzes apagadas.

Amy destaca também as características que hoje cercam a conexão humana. Uma evidência vem do Japão, com o Xiaoice, projeto de inteligência artificial conversacional desenvolvido pela Microsoft na China, lançado em 2014. “Os relacionamentos se aprofundam na medida em que se divide momentos pessoais. Quanto mais alguém compartilha, mais íntimo se torna o vínculo. A substituição se torna dependência, que vira controle”, indica Amy.

A especialista coloca nesse mesmo pacote o uso crescente do Chat GPT para abordagens emocionais, muitas vezes, encarado como uma espécie de terapeuta. Até a religião entra nesse debate, pois “vivemos em um mundo louco, cada vez mais online e sozinhos”. Amy alerta para a criação do mercado da solidão. "Dependência se transformou em produto", adverte.

Amy chama a atenção para o termo "contribution credit", sistema que converte cuidados comprovados, mentorias e trabalhos comunitários em valor econômico financiado pelas instituições e mercados que dependem desse trabalho, em vez de impostos. "A empresa mais valiosa do mundo em 2031 não produzirá nada. Companhias devem criar estratégias para novas convergências, enquanto as pessoas devem usar a destruição criativa a seu favor. Se você quer autonomia, tome iniciativa", recomenda.

SPHouse
Amy Webb também conduzirá um painel no dia 15 de março na SP House, montada em Austin durante o SXSW. Esta é a segunda participação dela na iniciativa organizada pelo Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, em parceria com InvestSP, agência de promoção de investimentos vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, e conta com apoio da Prefeitura de São Paulo.

Amy Webb será entrevistada pelo curador de IA e tecnologia Ronaldo Lemos. Thiago Camargo, vice-presidente da InvestSP, também participará da conversa, que vai propor uma reflexão sobre a postura de líderes, criadores e instituições frente ao cenário de incertezas, mudanças aceleradas e processos de destruição criativa que impactam governos, mercados e a vida cotidiana.

Retrospecto
Em 2025, o SXSW foi realizado entre os dias 13 e 15 de março com 37.770 visitantes presenciais e 383.783 visualizações únicas no YouTube. Foram 3.409 palestrantes e 1.712 sessões. Amy Webb conduziu uma delas. O evento somou 165 festas oficiais e eventos especiais, representantes de 97 países e 2.583 profissionais de mídia e imprensa credenciados. A edição do ano passado alertou para a epidemia da solidão deflagrada pela excessiva exposição às telas. O Brasil mantém a tradição e é uma das maiores delegações do evento.