Future 100, da VML Intelligence, traz a estética do entropismo à publicidade

No lugar de um design rigoroso, recheado de padrões, a análise
mostra que a voz das ruas, como o punk, tem lugar e gera valor

A rede VML, da holding inglesa WPP, lançou há cerca de um mês o estudo de tendências ‘Future 100’ para este ano de 2026. A variação de temas e abordagens é elástica e vai do luxo à beleza, do retail à inovação, da saúde à tecnologia.
Chama a atenção, porém, um dos tópicos da rubrica Cultura: o entropismo. Está na primeira análise do estudo liderado pelas diretoras globais da VML Intelligence, Emma Chiu e Marie Stafford.

No lugar de uma estética rigorosa, recheada de padrões e convenções, por que não absorver a voz das ruas, como o punk rock fez nos anos 1970, que gerou provocações a desalinhamentos industriais como a versão da canção ‘My way’, clássico do arrumadinho Frank Sinatra, pelos ingleses anárquicos do Sex Pistols?
Ou o questionamento disruptivo de Joãosinho Trinta no desfile da Beija-Flor, ‘Ratos e urubus, larguem minha fantasia!’, de 1989, quando o lixo desafiou o luxo na Sapucaí? E o grafite?

O entropismo, nas palavras do ‘Future 100’, traz para o mesão das agências de publicidade o antagonismo do imaculado e do polido; a aspereza; a sujeira e a decadência como tom estético provocador para a temporada de 2026. É o dadaísmo moderno ditando tendência para quem aceita o caos e faz biquinho para o convencional lógico.

“A marcante exposição do Barbican, ‘Dirty looks: desire and decay in fashion’ (‘Olhares sujos: desejo e decadência na moda’), encerrada no Barbican Centre, em Londres, em janeiro deste ano, compartilha um mundo em constante transformação: a ruptura política e a crise climática colidem com um verniz algorítmico que oferece perfeição sem atrito, mesmo quando os sistemas do mundo real falham e se sobrecarregam. Nesse contexto, as roupas manchadas, corroídas, desfiadas, deterioradas ou carbonizadas carregam novos significados”, atesta o estudo da VML Intelligence.

Na exposição, acrescenta o ‘Future 100’, “os designers tratam a sujeira como uma ferramenta para o seu trabalho e usam a imperfeição como uma história que expõe a verdade, expressa desafio, demonstra resiliência e, talvez acima de tudo, evoca nossa conexão com a terra”. As redes sociais automatizam a informação que chega com críticas sem filtro; sem edição; sem pudor.

‘Jeito certo’, para Mentos, é comportamento da geração Z, que adora reinventar tarefas do dia a dia e criar tendências nas redes (Imagem: Divulgação)

FRAGMENTAÇÃO
O entropismo combina com a  estética da desordem, da deterioração, da fragmentação e do caos. E está bem alinhado ao ano de 2026 em um planeta que está carente de carinho diante do ódio e da desintegração da natureza. E, sobretudo, da artificialidade que ainda ocupa lugar no egocentrismo e na decadência.

Karen Van Godtsenhoven, curadora principal da exposição ‘Dirty Looks’, citada pelo ‘Future 100’, disse que pode ser o ponto de partida para a regeneração: “Talvez a sujeira possa ser uma espécie de libertadora para nós, daqui para frente”.
Rejeitar a voz popular não faz parte do repertório da publicidade. A estética do sujo é a base para a criatividade e a renovação. A psicóloga comportamental Jo Hemmings coloca seu ponto de vista sobre o tema à VML Intelligence no ‘Future 100’: “A criatividade se torna uma poderosa válvula de escape para o controle e o significado; ela nos ajuda a dar sentido ao caos, a transformar a ansiedade em expressão. Em tempos incertos, a inovação muitas vezes prospera porque somos forçados a pensar diferente, a nos adaptar e a encontrar beleza em lugares inesperados”, afirma.

E Bunny Kinney, diretora-executiva criativa global da Dazed Studio, compartilha suas impressões com a pesquisa da VML Intelligence: “A criatividade requer algum tipo de estímulo emocional para extrair inspiração... Acho que coisas negativas às vezes nos dão reações mais fortes”.

🔗Confira a matéria na íntegra na edição de 23 de março

Imagem do Topo: Divulgação