Histórias de Cannes: Marcelo Lourenço

Charles e eu, Chester e eu

A pior palestra que vi em Cannes também foi a mais inspiradora.

Foi no encontro da Lowe, em 2000: eu, recém-nomeado diretor de criação da agência em Lisboa, estava na sala com todos os diretores de criação do mundo. Entra o lendário Adrian Holmes, diz bom dia e passa a palavra a um inglês alto, desengonçado, uma espécie de Mr. Bean esticado no Photoshop. O inglês começa a falar, nervoso como um estagiário, a segurar uma folhinha toda amassada. Depois de gaguejar durante vinte minutos e de quase derrubar a garrafa de água, mete humildemente a sua VHS no aparelho, dizendo “espero que gostem do trabalho”.

E na TV começam a rolar os comerciais da Stella Artois (incluindo o “Hero’s Return”, com o soldado que volta da guerra para a aldeia do pai), o “Sofa”, da Reebok, os filmes da Tango (“You know when you’re been Tango’d”), a campanha de mídia impressa da Stella Artois, com os objetos de luxo (e que seria Grand Prix de Press naquele ano), a engraçadíssima campanha do licor Malibu (mostrando como seria a vida dos pescadores no Caribe se eles levassem a vida a sério) e, para finalizar, nada mais nada menos que um filme onde ele, além de diretor de criação, era também o redator. E vimos o “Litany”, do Independent (Don’t Talk, … Don’t Buy, Don’t Read).

O inglês era o Charles Inge, diretor de criação da lendária Lowe Howard Spink, e um dos meus heróis que, até então, só conhecia de nome.

Por incrível que pareça, ver o Charles Inge a gaguejar mudou a minha vida: se ele, o criador de tantas campanhas maravilhosas, também ficava nervoso e trocava os pés pelas mãos durante uma apresentação, como qualquer um de nós, o contrário deveria ser verdade e qualquer um de nós poderia criar o próximo “Litany” e mudar a história da publicidade.

Isto ainda não aconteceu, mas, desde aquele dia, eu nunca mais parei de tentar.

Chester e eu

No meu primeiro ano em Cannes, já trabalhando em Portugal, me senti uma estrela – era tanta gente me cumprimentando na rua, me dizendo como eu era genial e me dando os parabéns pelo trabalho, que eu quase comecei a acreditar.

Aí caiu a ficha: estão me confundindo de novo com o Ricardo Chester.

E estavam. É uma confusão que já acontecia no Brasil, ao ponto de, no meu primeiro estágio na Young, há milhares de anos, o Robertinho Pereira ter telefonado ao Chester só para dizer: “Achei o teu irmão gêmeo!”. O que é um exagero – eu sou muito mais bonito do que o Chester.

Por falar em estágio, neste mesmo ano, encontrei o grande Ruy Lindenberg a caminhar sozinho pela Croisette e não tive dúvidas: agarrei-o pelo braço e fiquei uma boa meia hora agradecendo, dizendo como aquele estágio na Young mudou a minha vida, essas coisas que a gente só tem coragem de dizer quando já bebeu mais do que deveria.

O Ruy, como o senhor que é, agradeceu, disse que não era nada e fugiu o mais rápido possível. E eu, no dia seguinte, acordei com uma dor de cabeça dos infernos e cheio de remorsos.

O que me consola é saber que o Ruy deve ter voltado pra agência dizendo: “O Chester estava tão bêbado em Cannes que achava que agora trabalhava em Portugal”.

*diretor de criação da Fuel Lisboa