Kasley Killam: "2026 é o ano do analógico"

Cientista social aborda a necessidade de iniciativas capazes de fortalecer a saúde social durante o SXSW 2026

A cientista social Kasley Killam, que estuda conexões humanas, conduziu o painel ‘Social health trends and predictions: Connection is the new frontier’, apresentado na tarde desta quinta-feira (12), primeiro dia do South by Southwest (SXSW), que ocorre em Austin, no Texas, até 18 de março de 2026, com mais de 600 painéis.

Fundadora da organização sem fins lucrativos Social Health Labs, dedicada a fortalecer comunidades e combater a solidão, Kasley coloca a saúde social como o terceiro eixo do bem-estar humano. “A saúde social não é só física e mental. É também social”, defende a autora do livro ‘The art and science of connection: Why social health is the missing key to living longer, healthier, and happier’.

Desafio de governos em todo o mundo, a construção de conexões genuínas também depende do senso de comunidade e da qualidade dos relacionamentos - o chamado “social prescribing”, uma das principais tendências apontadas para 2026. “Não adianta ter pessoas ao redor se você não tem elos fortes”, diz a consultora, que alerta para a epidemia da solidão - agravada pelo excesso de telas. O tema foi tratado também na edição de 2025 do SXSW.

“As pessoas socializam cada vez menos e as famílias não se sentem mais à mesa juntas para suas refeições. Cerca de 16% dos norte-americanos se sentem solitários. Globalmente, a proporção é de uma a cada seis pessoas. Uma média de 8% não possui amigos próximos”, situa a estudiosa. Segundo Kasley, até as buscas no Google denunciam a fragilidade e insegurança ao se tentar interagir fisicamente com outras pessoas. “Como fazer amigos” e “Onde encontrar pessoas” são exemplos de perguntas frequentes.

Kasley Killam em sessão do SXSW 2026, apresentada no hotel Hilton: “Vamos exercitar os nossos músculos sociais” (Divulgação)

A especialista elenca alguns ambientes que podem contribuir para elevar a conscientização sobre a saúde social. Gerações solitárias podem ter a escola como espaço capaz de mudar o curso de interações humanas. Já as empresas devem investir em programas para aumentar o engajamento das equipes. Já o papel das big techs é controverso. “Vemos países banindo as redes sociais para menores de 16 anos. Cerca de 49% da geração Z já desenvolve uma relação emocional com a inteligência artificial e 37% se vê apaixonada pela companhia da IA”, adverte Kasley.

Das comunidades, surge o exemplo dos “Super neighborhoods”, de Paris, movimento comunitário criado por moradores de um bairro da capital francesa. Antes distantes, eles passaram a adotar uma convivência compartilhada, evidenciando uma das mais prementes inovações em saúde social. “2026 é o ano do analógico. Cerca de 29% das pessoas estão ativamente fazendo mais amigos neste ano do que no ano passado”, conta Kasley.

Segundo ela, o setor de saúde mental já ultrapassa US$ 380 bilhões e deve alcançar US$ 530 bilhões até 2030, sugerindo que o campo emergente de social health pode seguir trajetória semelhante. “Acredito que as pessoas podem ser amadas. Devemos liderar a saúde social com compaixão e integridade”, recomenda Kasley. “Vamos exercitar os nossos músculos sociais”, emenda. A especialista deixa também alertas. “O sinal amarelo acende quando a IA suplementa as conexões humanas. Já o vermelho sinaliza a substituição de relacionamento”, avisa.