A invasão das chuteiras rosas na Copa lembra a estratégia que transformou a Pantera Cor-de-Rosa em um ícone mundial do cinema. O personagem não precisava falar para ser percebido; sua cor fazia o trabalho. Da mesma forma, Nike, Adidas, Puma e New Balance parecem ter entendido que, em um evento disputado pela atenção de bilhões de pessoas, a visibilidade vale ouro. O rosa fluorescente se tornou um atalho visual capaz de destacar atletas, gerar repercussão nas redes sociais e ampliar a exposição das marcas sem interromper a experiência do jogo.
A Copa do Mundo sempre foi uma das maiores vitrines globais para fabricantes de material esportivo. Por isso, cada detalhe relacionado ao design dos produtos utilizados pelos atletas costuma ser planejado com antecedência. Neste cenário, o destaque das chuteiras rosas se tornou um dos movimentos mais comentados da competição. Presentes nos pés de atletas de seleções como Brasil, Alemanha, Estados Unidos, Japão, México, Coreia do Sul e Marrocos, os modelos em tons fluorescentes ganharam protagonismo ao longo do torneio e chamaram a atenção não apenas dos torcedores, mas também de especialistas em marketing esportivo e branding.
Mas por que?
Embora o fenômeno possa parecer, à primeira vista, uma simples tendência estética, a predominância da cor reflete uma estratégia cada vez mais relevante para as marcas esportivas: maximizar a visibilidade dos produtos em um dos eventos de maior audiência do planeta.
De acordo com a Adidas, a cor rosa traz diversos aspectos: “No mais alto nível do futebol, a visibilidade é importante não apenas para o atleta que utiliza o produto, mas também para a forma como o jogo é vivenciado pelos torcedores no estádio e pelas transmissões. Além do aspecto de performance, o futebol tem se tornado cada vez mais uma forma de expressão, e os jogadores de hoje buscam maneiras de demonstrar confiança e personalidade. O rosa está justamente na interseção entre visibilidade, energia e autoexpressão.” Para a empresa, a quantidade de chuteiras rosa no evento, é algo empolgante de se ver. “A Copa do Mundo sempre refletiu os rumos da cultura do futebol. A presença cada vez maior de cores ousadas mostra como performance e autoexpressão caminham juntas no futebol moderno.”

Para Karine Karam, especialista em comportamento do consumidor e professora do hub de trade marketing da ESPM, a Copa do Mundo funciona como uma enorme plataforma global de comunicação e construção de marca, e nada que aparece em campo é fruto do acaso, especialmente quando se trata das chuteiras. Para ela, o fato de Nike, Adidas, Puma, New Balance e outras marcas terem apostado simultaneamente em uma mesma tendência não significa necessariamente uma coincidência, mas sim uma convergência estratégica.
“Todas essas empresas analisam os mesmos movimentos culturais, acompanham as mesmas tendências globais de moda, comportamento e consumo e entendem que a atenção do público está cada vez mais disputada. Em um ambiente visualmente homogêneo, formado por gramados verdes, uniformes tradicionais e transmissões cada vez mais rápidas, uma cor vibrante se transforma em um poderoso recurso de diferenciação. O rosa cria contraste, facilita a identificação do atleta e aumenta a memorabilidade da marca, tanto para quem está assistindo ao jogo quanto para quem consome os inúmeros recortes que circulam posteriormente nas redes sociais.”

A professora analisa que o principal objetivo é justamente ampliar sua capacidade de gerar repercussão orgânica, dentro de um cenário onde Instagram, Tik Tok e portais esportivos dominam o conteúdo em tempo real.
“A capacidade de uma chuteira colorida funcionar como mídia dentro de campo é enorme. Diferentemente de outras formas de publicidade, ela está integrada ao desempenho do atleta. Se um jogador decisivo utiliza determinado modelo, a associação entre performance, desejo e produto acontece de forma quase instantânea. É uma estratégia extremamente eficiente porque não interrompe a experiência do espectador; ela faz parte dela”, explica.
Ela afirma que a decisão também impacta em uma quebra de códigos culturais e formas de consumo de artigos esportivos: “O esporte se aproximou definitivamente da moda e da expressão individual. Os consumidores, especialmente os mais jovens, já não escolhem produtos apenas pela funcionalidade, mas também pelo significado, pela estética e pela capacidade de representar sua personalidade. Há também uma quebra importante de códigos culturais. Cores que antes eram associadas a determinados gêneros perderam essa rigidez e passaram a ser interpretadas como elementos de autenticidade, ousadia e identidade própria. O rosa, hoje, é percebido muito mais como uma cor de destaque e atitude do que como um símbolo exclusivamente feminino.”
Imagem do Topo: Divulgação



