A grande exaustão

Flavio Waiteman, sócio e CCO da Tech&Soul

Ei, filho, sente-se aqui. Acalme-se. Vamos falar sobre esses tempos que vivemos com uma impressão coletiva de cansaço da inovação. Impossível acompanhar a velocidade do que aparece a todo momento e da realidade humana de estar perdendo aquilo que nunca se conheceu.

Sim, inovação é só uma ideia que te vendem ou que você compra e a maioria delas nunca acontece de fato. Metaverso? Óculos virtuais? Segway? Todo ser humano tem medo do que vai acontecer e esse medo é maior do que o sentimento que você tem quando o fato acontece. Não tema. Tanto.

Não vamos passar correndo pela existência afogados em ácido gástrico e sentindo que perdemos o show mesmo com o badge no pescoço e em frente ao palco.

Esse mal moderno em se manter ultra-atualizado é uma cerca imaginária que toda vez que a gente passa por ela, ela aumenta e fica mais distante. Na verdade, poucas invenções serão tão úteis quanto a Benzetacil e a vacina contra a dengue.

Você é humano, meu querido. E um ser humano pode ter outras ideias além da obrigação de inovar. Ideias de preguiça, por exemplo.

Se nem a realidade é mais igual para todos. Se o  elétron, quando observado, pode ser onda, e quando ninguém olha, ele pode ser  partícula, vemos que respostas simples para problemas complexos são um mal moderno. Se nem a física é mais confiável com essa coisa quântica incompreensível, imagine a indústria das novidades fantásticas como funciona.

Não se sinta pressionado a cortar, maximizar, escalar, o tempo todo. Não coloque o mundo, o planeta e seus recursos no sistema que alguém inventou e virou natural. A sua vida, e me refiro ao seu tempo em minutos e segundos, não foi dada a você para ser sistematizada, escalada, ebitidizada. Os recursos naturais e neurais possuem uma fronteira. E o quentinho de estar do lado de cá da fronteira é bom também.
Respire um pouco. Durante um tempo, sem telas e pergunte a você mesmo o que você sabe sobre as coisas.

Pense em tudo o que já conquistou, em vez de listar o que falta. O que você faria hoje se fosse embora daqui amanhã? Pois, na verdade, isso é uma das hipóteses válidas.

Tem horas que andar por aí sem pensar em nada pode ser a coisa mais inovadora que você pode fazer. Mesmo porque um agente de IA estará fazendo as coisas para você. Deixa com ele. Inclusive treine-o para deglutir as novidades e para te apresentar na próxima semana. Preguiça.

Não se sinta ultrapassado. Pois esse conceito não existe mais na idade da autoautomatização. Não se sinta culpado por não assistir à última palestra da mais recente ex-executiva do C-level, que descobriu que estamos fritos, pois a essa altura já não teremos acesso às mais profundas tecnologias, e os assuntos sobre os quais conversam em uma língua criada para só elas entenderem.

Em resumo, meu filho, você não vai conseguir competir com alguém que não dorme, não se alimenta organicamente, nada sente ou socializa, com exceção da curta duração dos créditos que você compra que na verdade servem para girar a roda. E, para terminar, cuidado com as palavras: em especial fique atento quando usarem disrupção. Destruir tudo para colocar algo no lugar nos deu esse mundo que temos hoje. Engraçado quando dizem que nós, humanos, precisamos salvar o mundo e vemos as campanhas de conscientização sobre atitudes que visam a salvar o planeta que está aí há 4 bilhões de anos, enquanto nós aparecemos nos últimos 30 segundos dessa história toda.

Sem pressa, tudo bem se sentir exausto.

A Mãe Natureza é uma criminosa contumaz que já tentou destruir o ser humano pelo menos oito vezes em eventos de extinção em massa. Dia desses, depois de tanto tentar, ela consegue. Então querido, relaxa.

Imagem do Topo: divulgação