Atividade física é mais do que isso

Você chega a uma idade em que fica impossível deixar de fazer atividade física. Sempre gostei de esportes, mas nunca fui muito fanático, até aquela barriguinha começar a incomodar. Não tinha ouvido falar da família Gracie (antes dos anos 1990, eles no Rio de Janeiro, quase exclusivamente, e eu em São Paulo) até aparecer uma oportunidade de fazer uma matéria para TV e acompanhar um lutador chamado Rickson Gracie para participar de uma luta no Japão. Fiquei impressionado com a fama deste brasileiro em terras nipônicas e eu – brasileiro, apesar de morando em Los Angeles – nunca tinha ouvido falar. Desde nossa chegada a Tóquio até a ida a um pequeno vilarejo nas montanhas, onde ele iria se aclimatar para a luta na capital, Rickson era tratado como uma estrela do rock. A dedicação, a técnica (a luta durou pouco mais de três minutos), o vigor e o enfoque me impressionaram. Sempre entendi a luta como algo primário, agressivo, de sobrevivência. Mas o jiu-jítsu me mostrou ser algo diferente e Rickson Gracie, um Michelangelo.
O jiu-jítsu, que dizem ter surgido na Índia há 2 mil/5 mil anos, foi parar no Japão, acabou adaptado no Brasil pela família Gracie no começo do século passado, e é uma arte marcial muito peculiar. Tem toda uma teoria do mínimo esforço, na qual a vantagem está em usar a força e movimentos do oponente contra ele próprio. É uma prática que faz a palavra “arte” se sobressair sobre a “marcial”. Exige uma sensibilidade e criatividade para se conseguir o objetivo desejado. Exige concentração, compreensão e atenção ao oponente para que você não só consiga sobreviver, mas sair de uma situação melhor do que entrou. Um jogo de xadrez com o próprio corpo. A conclusão é clara: é um resumo do que ocorre no nosso dia a dia, na nossa vida. Charles Darwin, com sua teoria da evolução, já havia notado que a sobrevivência de uma espécie não tinha a ver com força, tamanho ou mesmo inteligência. Tinha a ver com a capacidade de adaptação, a famosa frase “sobrevivência do mais apto”. O jiu-jítsu é uma luta de adaptação para controlar o seu oponente, mesmo que este seja maior ou mais forte.
Enfim, passaram-se dois ou três anos da minha viagem ao Japão, quando resolvi me aventurar no jiu-jítsu. O que tinha a perder? O resultado surpreendeu. Não foi um começo fácil: torções em todos os lugares, pernas e braços doloridos, pescoço travado etc. Enfim, para um produtor de TV/cinema, em seus 40 anos, o jiu-jítsu não somente conseguiu me deixar numa forma física invejável, mas também me fez enxergar o mundo com outros olhos. No nosso dia a dia, quando nem há tempo para respirar, navegamos de um problema ao próximo. Decisões precisam ser tomadas rapidamente. O que não imaginava é que toda a técnica que você aprende - desde a respiração até a análise do oponente - e a calma nas decisões são características que, aplicadas no dia a dia, te transformam num profissional mais analítico, numa pessoa mais autoconfiante, calma, mais empática e, enfim, mais eficiente.
Além disso, os desafios mentais, de entender a mecânica dos movimentos, fazem com que a prática se torne mais mental do que física. Algo que as pessoas nem percebem ou que não faz parte dos objetivos iniciais.
Hoje, após mais de duas décadas no tatame, fazendo parte do time do grande mestre Jean Jacques Machado, e tendo passado por outros grandes como Rorion Gracie e, no Brasil, os irmãos Costa, não consigo imaginar como seria minha vida sem ter passado por esta experiência. Cresci como ser humano, profissional, pai e parceiro, fiz novas amizades e passei a ter um olhar positivo sobre a vida.

Fabio Golombek, presidente da FJ Produções