Bolhômetro

Na tentativa de explicar cientificamente os mistérios da vida, Stephen Hawking escreveu o best-seller O universo numa casca de noz. Um ótimo exercício literário de como o quase inexplicável pode ser abordado de maneira mais compreensível para a mente humana, quando colocado em escala e de preferência numa forma geométrica com significados que uma criança entenderia.

Gostaria de falar hoje sobre um dos grandes desafios de comunicação do nosso tempo: os multiversos da comunicação e como eles impactam nossa vida e nosso dia a dia. Mas antes preciso que você pense em bolhas.

Imagine um dia ensolarado num parque e centenas de bolhas sendo criadas por crianças que assopram canudinhos com mistura de água e sabão. Cada bolha criada instantaneamente possui uma forma diferente com tamanhos e brilhos distintos. Algumas são ligadas entre si. Outras vão se ligando a bolhas maiores e sendo incorporadas. Existe também, no meio delas, um mágico meio estranho que também faz bolhas gigantes e muito bonitas.

Todas essas bolhas criam um fenômeno interessante, pois são fenômenos transparentes, encantadores, lúdicos. Mas também separam como microuniversos. Só as bolhas na comunicação podem explicar como você acorda num belo dia e, de repente, se vê num país armado até os dentes, num dos maiores cases de sucesso local da indústria armamentista global.

Bem como explica o desaparecimento paulatino de marcas de sucesso do nosso dia a dia. No caso das armas, em algum lugar existiam bolhas se formando e elas simplesmente engoliram a sua realidade. No caso das marcas, elas devem continuar fazendo sucesso em bolhas cada vez menores, porém confortáveis. Sabe aquele mágico estranho lá em cima no exemplo?

Bolhas. Elas nos fascinam, nos agrupam, confortam e nos separam. Assim como no exemplo das crianças que sopram o canudinho com sabão, existe ciência por trás desse fenômeno das bolhas de audiência.

As bolhas são criadas em temas comportamentais, existenciais, políticos, de ódio e de interesses. Formam-se no fôlego dos algoritmos espertos, alguns os chamam de maliciosos. Essas bolhas fazem todo sentido comercial para seus criadores. Afinal, quem separa os universos, pode cobrar a passagem para quem deseja passar entre eles. Ou então criar bolhas que atendam a interesses específicos e bastante reais.

Para ficar num só exemplo, na bolha de comunicação que Putin criou, em que tentam colocar os cidadãos russos, o líder da Ucrânia é nazista, mesmo sendo judeu e toda a “operação especial” não é uma invasão a um país autônomo e sim uma “libertação”.

Estamos aprendendo que algumas bolhas podem estourar de maneira perigosa. Bolhas de audiência e comunicação são uma realidade e estão moldando o mundo.

Em algum momento, vão precisar ser estudadas, entendidas e, de certa forma, combatidas. Talvez um verdadeiro profissional de comunicação, marketing, jornalismo e publicidade hoje precise fazer uma coisa muito bem, para fazer bem o seu trabalho: furar bolhas.

Flavio Waiteman é CCO-founder da Tech and Soul
flavio.waiteman@techandsoul.com.br