Captar mais não é democratizar: o paradoxo da Lei Rouanet

Vanessa Pires, CEO da Brada

Os números impressionam, e devem mesmo. O recorde recente de captação via Lei Rouanet, que alcançou R$ 3,41 bilhões em 2025 e consolida uma trajetória crescente nos últimos anos, é, sem dúvida, um sinal positivo para o setor cultural brasileiro. Mas, como toda estatística robusta, ele esconde camadas mais profundas que precisam ser analisadas com atenção.

O primeiro ponto é compreender o que, de fato, esses números representam. A Lei Rouanet não é apenas uma ferramenta de financiamento: é um mecanismo de articulação entre Estado, iniciativa privada e sociedade. Quando vemos a captação atingir patamares recordes, mais de R$ 8,8 bilhões acumulados no atual ciclo de governo, estamos, na prática, olhando para um aumento da confiança das empresas em associar suas marcas à cultura e, ao mesmo tempo, para uma maior capacidade do setor em estruturar projetos viáveis.

Mas há um segundo movimento por trás desses dados: a profissionalização. Projetos culturais hoje não competem apenas por relevância artística, mas por governança, transparência e capacidade de entrega. A cultura passou a dialogar mais diretamente com métricas de impacto, indicadores e retorno, ainda que simbólico, para patrocinadores. Isso muda completamente o jogo. Não se trata mais apenas de criar, mas de gerir.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que o crescimento da captação não resolve, por si só, um dos desafios históricos da Lei Rouanet: a concentração. Ainda que haja avanço regional, com aumento significativo no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o Sudeste e o Sul continuam liderando em volume absoluto. Isso revela que ampliar recursos é diferente de democratizar o acesso a eles.

Há também uma leitura econômica que não pode ser ignorada. Estudos já demonstraram que cada real investido via Lei Rouanet retorna mais de um real para a economia, ativando cadeias produtivas que vão muito além da cultura, como turismo, transporte e serviços. Ou seja, quando a captação cresce, não estamos falando apenas de mais espetáculos, exposições ou livros, estamos falando de desenvolvimento econômico.

No entanto, o dado mais interessante talvez seja invisível nas manchetes: a mudança de percepção. Durante anos, a Lei Rouanet foi alvo de polarização e desinformação. O crescimento consistente da captação sugere que, independentemente do debate político, o instrumento se consolidou como política pública relevante e funcional. Empresas continuam investindo, projetos continuam sendo aprovados e a engrenagem segue girando.

Mas isso não significa que o modelo esteja isento de revisão. Pelo contrário. O momento de alta é justamente o mais oportuno para discutir aprimoramentos: como ampliar o acesso de pequenos produtores? Como incentivar inovação e diversidade? Como garantir que o impacto social seja tão relevante quanto o financeiro?

Os números, por si só, contam apenas parte da história. Eles mostram expansão, mas não necessariamente equidade. Indicam força, mas não garantem distribuição. Revelam confiança, mas não substituem estratégia.

Para quem atua na interseção entre cultura, negócios e impacto, como é o caso de quem lidera organizações comprometidas com a transformação, o verdadeiro desafio está em ir além da celebração dos recordes. É entender o que eles sinalizam e, principalmente, o que ainda deixam de mostrar.

Porque, no fim, o que está por trás dos números não é apenas crescimento. É a oportunidade, ainda em construção, de redefinir o papel da cultura como vetor estruturante do desenvolvimento brasileiro.

Imagem do Topo: Divulgação