Carnaval plural
A Igreja torce o nariz, os mais conservadores criticam, mas, a cada ano, o Carnaval se fixa como a maior e mais importante celebração do Brasil. Houve uma época em que se questionava o porte alcançado pelo Carnaval oficial carioca, tornando os desfiles das escolas de samba um evento elitista, repleto de gringos.
Sim, esse processo aconteceu, mas há inúmeras oportunidades de curtir o Carnaval, muito além do Sambódromo. E não só no Rio: além das capitais nordestinas, com destaque para Salvador e Recife, São Paulo bate recordes de número de blocos que saem na cidade, passando hoje de 600.
Andar por São Paulo nessa época é presenciar manifestações criativas por todos os lados. Criativas e inclusivas. Você não precisa comprar um abadá caríssimo para acompanhar um bloco. Os “pipocas”, como são chamados aqueles que acompanham os blocos informalmente, sem vínculo com os organizadores, têm total liberdade de curtir a festa e se divertir. É a festa de todos, não importando cor de pele, classe social, identidade sexual...
E a variedade de blocos é imensa: vai desde os mais tradicionais, superconcorridos, com estrelas se apresentando – inclusive internacionais –, até aqueles que atraem apenas um nicho ou um grupo pequeno de amigos.
Eu mesmo não me arrisquei a ser mais um entre centenas de milhares que acompanharam os megablocos, mas fui curtir com toda a segurança e zero perrengue o bloco criado este ano pelo amigo Enio Guedes, o Chique no Úrtimo.
Tem aqueles que ficam no seu bairro mesmo, curtindo um samba no boteco da esquina. Há outros que nem isso – preferem ficar longe do agito. E tudo bem! A beleza está na liberdade de cada um de curtir à sua maneira. Mas é bonito ver a efervescência reinante em todos os cantos da cidade. E vale destacar o lado inclusivo da festa. O Carnaval garante “permissão” (não confundir com permissividade – que há também) para as pessoas se expressarem livremente, sem o receio do olhar recriminador. Outro aspecto importante é a movimentação financeira que o evento proporciona, principalmente no turismo e no setor de serviços, além das iniciativas de marketing dirigido. Dentro dessa visão mais ampla, me arrisco a uma análise sob a ótica do ESG.
O Carnaval, quando bem organizado, é um exemplo vivo dos três pilares. No aspecto social, a festa democratiza o acesso à cultura e ao entretenimento, acolhendo pessoas de todas as origens. Não é pouca coisa. Em um país marcado por desigualdades tão profundas, ter um evento de escala nacional onde o rico e o pobre dividem a mesma calçada, dançam a mesma música e celebram juntos é, no mínimo, simbólico – e pode ser muito mais do que isso.
O Carnaval também é um espaço historicamente ligado à resistência e à afirmação de identidades marginalizadas. Negros, LGBT+, artistas periféricos: todos encontraram no Carnaval um palco quando outros lhes eram negados. Essa tradição segue viva.
No campo da governança, cresce a pressão – bem-vinda – para que prefeituras e organizadores adotem práticas mais transparentes e responsáveis na gestão dos eventos, desde o licenciamento dos blocos até o destino das verbas públicas investidas na festa. E no pilar ambiental, o debate sobre o impacto ecológico do Carnaval ganhou força.
Iniciativas de blocos que adotam copos reutilizáveis, reduzem o uso de plástico e promovem a coleta seletiva mostram que é possível ferver sem agredir.
Ainda há muito a avançar, mas a consciência está crescendo. No fim das contas, o Carnaval é um espelho do Brasil: plural, contraditório, exuberante e com potencial inesgotável. Cabe a todos nós – foliões, organizadores, poder público e empresas – fazer com que essa festa gigante seja cada vez mais justa, sustentável e verdadeiramente de todos.
Alexis Thuller Pagliarini é sócio-fundador da ESG4