Coincidência é destino com sotaque brasileiro

Sergio Gordilho, sócio, copresidente e CCO da Africa Creative

Tem algo que acontece neste país de quatro em quatro anos que escapa da lógica e entra direto no território da fé. Talvez porque, para nós, brasileiros, o futebol nunca tenha sido só futebol.

É espelho. E eu falo também do meu lugar: sou baiano. E na Bahia acreditar nunca foi um exercício racional.

Copa, para mim, nunca foi somente um calendário esportivo - é um calendário de vida.

Copa é esse ritual raro em que todo mundo vira íntimo por 90 minutos.

Quando ressurgem as camisas de 1994, de 2002, a do símbolo do café, ou o amarelo desbotado de 1982... Não são uniformes, são biografias. São mensagens que enviamos para o mundo - é quando a gente veste a memória para empurrar a esperança.

As únicas camisas novas são das crianças. Talvez porque nelas ainda caiba todo o futuro.

Porque, no Brasil, coincidência é só outro nome para destino com sotaque.

A cada quatro anos viramos matemáticos do misticismo. Encontramos sinais, padrões, repetições. Um Nobel de matemática para um país inteiro.

A lógica duvida, mas o torcedor prefere acreditar. E acreditar, por aqui, não é ingenuidade. É estratégia de sobrevivência.

A Copa não é sobre o que faz sentido. É sobre o que faz sentir: é aquele milésimo de segundo entre o chute e a rede em que o país inteiro prende a respiração ao mesmo tempo.

Nenhum outro evento sincroniza um país assim. É exatamente aí que as marcas entram em campo.
A Copa não é um intervalo comercial, é o conteúdo da vida das pessoas naquele período.

Aliás, intervalo comercial é o que acontece entre duas Copas, porque durante a Copa o país inteiro está em horário nobre.

É final de novela. É sábado à noite esperando descobrir quem matou Odete Roitman com o final do ‘BBB’ e junto com a final de ‘Game of thrones’.

Marcas que entendem isso deixam de interromper e passam a ser escaladas na nossa memória emocional.

Porque, da mesma maneira que você abraça um desconhecido ao seu lado no momento do gol e leva essa amizade improvável para sempre, isso também vale para as marcas que estavam torcendo ao seu lado.

Mas existe uma diferença enorme entre aparecer na conversa e ser convidado para ela.

Consumidor é audiência. Comunidade é pertencimento. E pertencimento não se compra, se constrói.

No fim, a Copa é o momento em que o Brasil ensaia a versão mais otimista de si mesmo. É quando um país inteiro decide, ao mesmo tempo, voltar a acreditar em si.

Quando a bola rola, o Brasil deixa de ser mapa. Vira memória em construção, vira futuro em disputa, vira possibilidade coletiva.

E daqui a alguns anos, quando lembrarmos desta Copa, não vamos lembrar apenas dos gols. Vamos lembrar de quem esteve ao nosso lado quando o país inteiro voltou a sonhar junto.

Imagem do Topo: Rodrigo Pirim