É Copa do Mundo. Tá ligado? É pi#$@.
Toni Fernandes, sócio e diretor de criação da Monkey-land
Semifinal da Copa do Mundo Fifa 2014. Quem já criou para o maior evento de futebol do mundo sabe: o patrocinador oficial da Copa do Mundo Fifa não pode falar apenas “Copa”. (Perdão, dona Fifa.) E quem não é patrocinador oficial não pode nem falar “Copa”. (Sorry novamente.) Bem, voltando. Quer dizer, indo. Fui de ônibus para BH cantando: “Morro do Dendê é ruim de invadir, nós com os alemão vamô se divertir”. Como diria André Rizek: “Coragem, Felipão. O meio de campo da Alemanha não marca muito. Deixa os 3 volantes para depois”. A torcida estava empolgada, a crítica esportiva iludida e a propaganda refletia um pouco as características do nosso ainda menino Ney: alegria e ousadia.
Naquele ano, participei de duas campanhas. Uma para um patrocinador oficial da seleção brasileira, ‘Joga pra mim’, da Sadia, e outra para um patrocinador não oficial da festa dos brasileiros, ‘Bem-vindo às nossas redondezas’, da Skol. A campanha da Sadia, criada pelo Fabio Fernandes, mostrava crianças falando: “Eu tenho 8 anos, eu tenho 12 anos, eu nunca vi o Brasil ser campeão. Joga pra mim”. A segunda campanha, da Skol, mostrava a torcida brasileira recebendo italianos, ingleses, argentinos e franceses com versões redondas dos hinos adversários. Propaganda moleque, propaganda arte, criada no terrão das salinhas de criação. Sorte nossa que a versão da Alemanha nunca foi produzida. Ufa!
Bem, amigos da Rede Globo, falamos ao vivo de BH. Criou-se um clima terrível no saguão do aeroporto (voltei de avião, upgrade). A TV do embarque mostrava o velório ao vivo: David Luiz chorando, a carta da Dona Lúcia. Cadê o Olodum? Sumiu. Se o Felipão — que é o Felipão — não estava preparado para o 7x1, imagina então a propaganda? A alegria virou tristeza e a ousadia virou medo. Se está ruim agora, imagina depois da Copa, só para não perder o meme da época. Aliás, se tem uma coisa em que o brasileiro é hexa é na capacidade de rir de si mesmo. Ninguém no planeta Terra consegue produzir meme melhor do que o brasileiro. A gente ganha a Copa do Mundo de meme sem escalar volante, só com o Chico Buarque triste e o Chico Buarque feliz. Pode abraçar o rei e gritar: acabou, acabou, é tetra.
Alguns exemplos históricos: depois da derrota para a França na final da Copa de 1998, nasceu o meme/fake news/teoria da conspiração “se soubessem o que aconteceu, ficariam enojados”. Depois do 7x1, então, o brasileiro foi mais rápido do que Müller e Klose juntos. Era canarinho pistola para um lado, bruxa do 7x1 com Felipão de Dona Clotilde do outro, resgate de um episódio dos Simpsons prevendo a derrota do Brasil para a Alemanha, zagueiro chorão etc. Sobrou até para as propagandas. A Sadia foi a primeira marca a se posicionar. O #JogaPraMim virou #TamoJuntinho.
Mas o que explica essa alegria nas pernas e nos dedos do brasileiro na tristeza? Senta que lá vem história: o complexo de vira-lata do brasileiro foi uma expressão criada pelo escritor Nelson Rodrigues e se referia originalmente ao trauma sofrido pelos brasileiros na Copa de 1950, quando o escrete canarinho foi derrotado pelo Uruguai em pleno Maracanã, episódio conhecido como Maracanaço. Um famoso naming rights de antigamente. Já a expressão “seleção canarinho” e a camiseta amarela surgiram para aposentar a camiseta branca de 50, considerada um amuleto de azar. O famoso rebranding dos tempos atuais. O vira-latismo nasceu em 1950 e renasceu com o caramelo nas redes sociais. A camisa canarinho voltou agora e renasceu na internet com o canarinho de 3 pernas de IA.
O brasileiro tem uma capacidade inacreditável de sofrer “chorrindo”. E o que a propaganda aprende com o 7x1? Que as marcas têm de estar preparadas para todos os cenários possíveis e impossíveis. Mas pode ter certeza: nenhuma marca, nenhum war room, nenhuma campanha é à prova de brasileiro. A gente é o Pelé da criatividade. Pode escalar 3 volantes, ninguém segura. Então, marcas, coragem. É Copa do Mundo, amigo. Tá ligado? É pi#$@.
Imagem do Topo: Divulgação