Entre algoritmos e aplausos, o que realmente move uma história?
Se no meu primeiro texto eu trouxe uma reflexão sobre a humanidade que queremos preservar, esses últimos dias no SXSW me trouxeram um outro olhar, menos conceitual e mais emocional.
Não foi em uma palestra, foi dentro de um teatro.
Assisti ao lançamento de um filme brasileiro no Paramount Theatre, com o elenco presente, aplausos ao final e uma cena que me marcou profundamente: americanos pedindo fotos para atores brasileiros.
O filme Corrida dos Bichos, dirigido por Fernando Meirelles, é tecnicamente impecável, com uso consistente de tecnologia, linguagem cinematográfica e uma narrativa bem construída, mas não foi nisso que mais me chamou a atenção, foi o sentimento.
Quando a história atravessa fronteiras
Existe algo muito potente quando uma história ultrapassa o seu limite de origem e encontra conexão em outro contexto cultural.
Ali naquele momento ficou evidente que não é sobre onde a história nasce, é sobre o quanto ela consegue ser sentida.
E talvez essa seja uma das grandes provocações do SXSW 2026.
Estamos vivendo um momento em que a capacidade criativa cresceu de forma exponencial. A inteligência artificial já está integrada aos processos criativos, operacionais e estratégicos, mas, ao mesmo tempo, fica uma pergunta: o que de fato ainda nos conecta?
A tecnologia como meio, nunca como fim
Ao longo do evento, um ponto apareceu de forma recorrente. A inteligência artificial não substitui a criação humana, ela amplifica. Amplifica velocidade, escala e possibilidades, mas não resolve a intenção. Não resolve repertório. Não resolve sensibilidade.
Isso ficou ainda mais evidente quando contrastado com outra reflexão importante trazida no evento. Estamos avançando rapidamente na capacidade de traduzir sistemas complexos, até mesmo a comunicação entre espécies, mas ainda estamos aprendendo a interpretar significado. Talvez este seja um dos maiores riscos do nosso tempo, produzir mais antes de entender melhor.
O paradoxo do excesso
Outro ponto que me chamou a atenção este ano foi a ausência.
A Expo, tradicionalmente um dos espaços mais ricos em ativações e experiências do SXSW, praticamente não aconteceu, e isso me frustrou porque, em um evento que discute o futuro da experiência, a materialização dela se tornou escassa.
Vimos menos ativações e menos experimentação, mas talvez isso também seja um sinal. Estamos avançando muito naquilo que é possível fazer, mas ainda estamos ajustando o que faz sentido fazer.
Novo papel de quem cria
Em um dos conteúdos que acompanhei, uma frase ficou comigo. “O diferencial não será a ferramenta, mas a qualidade das perguntas”. Isso muda completamente o jogo, porque desloca o protagonismo da tecnologia para o humano e reforça algo essencial, nosso hardware continua o mesmo, seguimos emocionais, limitados, sociais, em busca de pertencimento.
E é exatamente isso que torna uma história relevante. O Brasil tem uma capacidade única de contar histórias com emoção, densidade cultural e humanidade, mas muitas vezes subestima tudo isso.
Enquanto buscamos referências externas, tecnologias e formatos internacionais, esquecemos que o nosso maior diferencial está justamente naquilo que é impossível de replicar, que é a forma como sentimos e contamos o mundo.
Entre algoritmos, agentes e automações, o momento mais potente que vivi no SXSW não foi sobre tecnologia, foi sobre conexão.
No fim, talvez a inovação não esteja no que conseguimos criar, mas no que conseguimos fazer alguém sentir, mesmo que essa pessoa esteja do outro lado do mundo.
Brenda Maia é CEO Eagle Agência