Estamos explorando artistas depois da morte, e chamando de inovação

Rodrigo Calabria, sócio da CCLA Advogados

A compra dos direitos de Tina Turner pela empresa por trás do ABBA Voyage não é apenas um bom negócio. É a prova de que a indústria do entretenimento encontrou uma nova fronteira de exploração: artistas que nunca mais param de trabalhar, nem depois de sua morte. A tecnologia já permite recriar vozes, rostos e performances com precisão inquietante. O que antes era memória virou simulação. E o que antes era homenagem começa a se parecer com uma extensão artificial de carreira.

A pergunta que quase ninguém está fazendo é simples: quem autorizou isso? Do ponto de vista jurídico, a resposta parece confortável. Direitos autorais podem ser vendidos. Direitos de imagem podem ser licenciados. Os herdeiros podem autorizar usos após a morte. Tudo dentro da legalidade. Mas a legalidade não resolve tudo, e, neste caso, talvez não resolva o principal. Porque há uma diferença fundamental entre explorar uma obra e recriar uma pessoa. Um avatar não é um disco relançado nem um show gravado. É uma nova performance. E toda performance envolve decisões: o que cantar, como se comportar, em que contexto aparecer.

Quem toma essas decisões quando o artista já não existe? A resposta prática é: quem comprou os direitos. A resposta incômoda é: alguém que não é o artista. O problema se agrava quando lembramos que muitos desses contratos foram assinados em um mundo que não previa essa tecnologia. Falar em consentimento pleno, nesses casos, é uma ficção conveniente.

A indústria sempre transformou arte em ativo. Mas agora dá um passo além: transforma identidade em produto replicável. E, como todo produto, esse novo “artista digital” pode ser ajustado, reconfigurado e otimizado para o mercado. O risco não é apenas jurídico. É artístico.

Quando a lógica passa a ser exclusivamente econômica, a integridade da trajetória deixa de ser critério. O que importa é o que vende. O sucesso de experiências como ABBA Voyage mostra que o público está disposto a comprar essa ideia. Mas a aceitação não é sinônimo de limite ético, e muito menos de limite jurídico.

Antes de normalizar esse modelo, vale encarar a pergunta que ele tenta evitar: se a tecnologia permite que alguém continue se apresentando depois de morto, isso significa que temos o direito de fazer isso?

Porque talvez o verdadeiro debate não seja sobre inovação, mas sobre até onde estamos dispostos a ir para monetizá-la.

Imagem do Topo: Divulgação