Fome de viver

A vida quer voltar a ser ao vivo. Existem bilhões de fotos da Fontana de Trevi no Instagram. Qualquer um pode ter acesso a essa arte incrível, sem precisar se deslocar até Roma.

A fonte é realmente impressionante e está presente no metaverso, em óculos com realidade aumentada, em filmes e até ao vivo por uma webcam, para quem acha que videochamadas substitui o presencial. Mas as pessoas querem mesmo é vê-la pessoalmente.

Em viagem recente, o que me impressionou mais do que as figuras hercúleas em mármore foi o olhar hipnotizado de milhares de pessoas se amontoando na praça minúscula onde fica o Fontana. Elas ficavam ali aproveitando o momento. Paralisadas.

Quase um sentimento de “aproveite antes que acabe”. Chegavam mais perto, jogavam uma moeda, faziam um pedido e continuavam olhando para a fonte.

Havia fila para entrar na praça. Congestionamento de atenção. Presenciar o momento estava sendo especial para milhares delas. Poucas pessoas ao celular,
na verdade. Corta para os pick pockets italianos fazendo a festa.

A realidade, depois de anos de delírio online, vai ser a próxima tendência no WGSN? Bem, isso precisa ser comprovado ainda, mas alguns sinais são claros.

A indústria da viagem está de volta. A vida ao vivo está de volta.

Corta para uma matéria do UOL sobre o impacto da turnê de Taylor Swift no PIB americano e o reconhecimento pela Casa Branca da sua importância para a indústria do turismo nos Estados Unidos.
Desde maio Taylor faz shows por lá. Todos lotados. Em Lisboa, uma onda de milhares de jovens tentando comprar um ingresso para o show de Taylor. Lotados também. No Brasil, Taylor já anunciou quantos shows extras?

A banda Coldplay, mais de 10 shows no Brasil. Muita gente não conseguiu ingresso. Se anunciassem mais shows, venderiam todos os ingressos. Os rapazes até aprenderam português.

Novos festivais, como The Town, Blues Festival e C6 Festival se tornaram sucessos de público instantâneos. Feiras regionais lotadas. Festa de peão em Barretos, Rio Preto, Ribeirão, Goiânia, Tocantins. Web Summit Rio, a mesma situação. SXSW, Cannes Lions.

Fome de viver. O estar presente ao vivo virou o novo luxo. Estar lá e viver o fato está valendo a pena. Eventos esportivos, lotados. Jogos de futebol, NBA, basebol.

A disrupção do metaverso vai ter de esperar um pouco. Bem que a luta de Zuckerberg vs. Musk em Las Vegas poderia acontecer e ser outro evento de muito sucesso.

Vê-los buscar quem tem razão, num octógono, seria interessante. As pessoas estão inquietas para ver, andar e se encontrar. Aviões lotados, restaurantes lotados, ruas lotadas, tuk-tuks.

O off vai tomando lugar da atenção das pessoas para que elas fiquem on com o que realmente importa.

A atenção das pessoas e o tempo que elas têm para perceber algo é o grande desafio de nosso tempo.

A vida é composta de vários layers. O digital, o dos sentidos e da vida. O pessoal agora quer ir, pra qualquer lugar. O mundo descobriu que viver é bom. Vamos pra rua.

Flavio Waiteman é CCO-founder da Tech and Soul
flavio.waiteman@techandsoul.com.br