Marcas que não jogam, perdem
Por que o universo gamer é o novo prime time da publicidade
Durante décadas, o “prime time” da publicidade esteve associado à televisão. Era ali, nos intervalos das grandes novelas, finais de campeonato ou reality shows, que as marcas disputam os segundos mais caros e cobiçados da comunicação. Esse modelo, porém, está passando por uma transformação profunda. O tempo de atenção do consumidor mudou de lugar, e, cada vez mais, ele está dentro dos games.
Hoje, o universo gamer reúne audiências que superam muitos dos eventos tradicionais da mídia. Plataformas de streaming, campeonatos de eSports e comunidades digitais conectam milhões de pessoas simultaneamente, em experiências que vão muito além da lógica passiva de assistir a um conteúdo.
Nos jogos, o público participa, interage, cria e compartilha. Essa diferença muda completamente a forma como as marcas podem, e devem, se comunicar.
Enquanto a publicidade tradicional disputa segundos de atenção em ambientes saturados, os games oferecem algo muito mais valioso: tempo de imersão.
Um jogador pode passar horas dentro de um mesmo universo digital, explorando narrativas, construindo identidades e interagindo com outros usuários. Para as marcas, isso representa uma oportunidade única de criar conexões mais profundas, orgânicas e memoráveis.
Essa mudança não é apenas uma tendência de comportamento. É uma transformação estrutural na economia da atenção. As novas gerações cresceram jogando, assistindo a streamers e participando de comunidades digitais. Para esse público, os games não são apenas entretenimento, são espaços sociais, culturais e até identitários.
Ignorar esse movimento significa falar com uma audiência cada vez menor. As marcas que insistem apenas nos formatos tradicionais correm o risco de se tornar irrelevantes para uma parcela enorme do mercado. Não se trata de abandonar os meios clássicos, mas de compreender que o centro de gravidade da atenção mudou.
Nesse contexto, surge uma nova fronteira para a publicidade: os branded games. Diferentemente de uma inserção pontual ou de um banner dentro de um jogo, o branded game coloca a marca no centro da experiência. Ele cria uma narrativa própria, desenhada para engajar o jogador de forma autêntica, divertida e relevante.
Quando bem executado, o branded game não interrompe a experiência do usuário, ele é a experiência. A marca deixa de ser apenas um anunciante e passa a ser parte do universo que o jogador explora. Esse tipo de estratégia amplia o tempo de contato, fortalece a lembrança de marca e cria vínculos emocionais que dificilmente seriam alcançados por formatos tradicionais.
Além disso, os jogos oferecem algo que a publicidade sempre buscou: mensuração profunda de engajamento. Cada interação, cada escolha e cada momento dentro do jogo pode gerar dados valiosos sobre comportamento, preferências e padrões de consumo. Isso permite campanhas mais inteligentes, adaptáveis e orientadas por experiência real.
Naturalmente, entrar no universo gamer exige sensibilidade. As comunidades de jogadores são altamente críticas e valorizam a autenticidade. A presença de marcas precisa fazer sentido dentro da experiência e respeitar a cultura do ambiente. Quando isso acontece, o resultado não é apenas visibilidade, é pertencimento.
O que estamos testemunhando é o nascimento de um novo prime time. Não um horário específico na grade de programação, mas um espaço digital onde milhões de pessoas escolhem estar, interagir e se divertir. Um espaço onde a atenção não é disputada à força, mas conquistada por meio da experiência.
Para as marcas, a pergunta já não é mais se devem entrar nesse universo, mas como fazê-lo de maneira estratégica e relevante. Porque, no cenário atual, quem entende o jogo constrói relacionamento. Quem não joga, inevitavelmente, fica para trás.
Bruna Simões é CEO da Thunder Games