O sexto poder - a comunicação na era dos algoritmos
No século XXI, o “código” é a lei. Nossa identidade e influência são cada vez mais mediadas por plataformas digitais, e a reputação — um dos ativos mais antigos e valiosos da humanidade — migrou do pátio da aldeia para o infinito espaço cibernético.
Qualquer análise contemporânea sobre comunicação será fundamentalmente incompleta caso ignore essa nova e formidável força que rege nosso ecossistema de informação.
Os algoritmos formam uma infraestrutura invisível que hoje organiza a informação, atuando como mediadora das interações sociais e, em última análise, governando a visibilidade e o valor no mundo digital.
Mas por que o sexto poder?
Temos os três poderes fundamentais da democracia, postulados por Montesquieu, em ‘O Espírito das Leis’(1748): Executivo, Legislativo e Judiciário.
A imprensa foi introduzida como o quarto poder por Edmund Burke no século XVIII, que capturou o papel da mídia como uma força externa de vigilância dos três poderes formais.
Mais recentemente, com a popularização da internet e das redes sociais, surgiu o quinto poder, também informal: a própria opinião pública, agora digitalmente amplificada e organizada, um conceito desenvolvido por William H. Dutton e pesquisadores do Oxford Internet Institute.
No cenário global de crises e reconfigurações sociais e geopolíticas, aparece o sexto poder: os algoritmos e, mais especificamente, as inteligências artificiais (IAs) conversacionais.
Diferente dos cinco anteriores, este poder informal não emana de atores humanos. Sua natureza é algorítmica, sua escala é planetária e sua operação é, em grande medida, opaca.
Por um lado, ao sintetizar vastas quantidades de informações produzidas pela humanidade e apresentá-las de forma reflexiva, as IAs podem ser uma poderosa ferramenta para conectar saberes e instigar o pensamento crítico.
Por outro lado, essa mesma capacidade de síntese as torna, potencialmente, um vetor sem precedentes para a manipulação social, preocupação que vem sendo alvo de infindáveis discussões por todo o planeta.
A relação paradoxal com o quarto poder é um ponto curioso desse novo cenário.
Ao elegerem, por critérios técnicos de confiabilidade e verificabilidade, os veículos de imprensa tradicionais como fontes primárias para suas respostas, os algoritmos estão, de fato, reafirmando a autoridade, a credibilidade e a relevância do jornalismo profissional.
Entretanto, ao entregarem uma resposta direta e sintetizada, a partir da consulta dessas fontes, desestimulam a visita direta aos sites-fonte.
Num futuro muito próximo, já em curso, as IAs serão os principais agentes de construção da reputação das marcas.
A era das IAs conversacionais prioriza a qualidade, a autoridade e a confiança, um retorno aos princípios mais fundamentais do branding que foram temporariamente eclipsados pela promessa de resultados imediatos.
Flavio Ferrari é fundador do hub SocialData, professor na ESPM e autor do livro ‘O sexto poder – algoritmos, inteligências artificiais e reputação digital’