Os livros do Lara e do Marcello

Terminar 2025 lendo as histórias de dois profissionais, com quem tive o prazer de compartilhar parte da vida profissional e me manter amigo, por mais que o tempo tenha passado e a distância aumentado, foi muito bom.

Ambos têm muito para contar e muito contam em seus livros. Cada um à sua maneira, observando os fatos do ponto de vista de suas atribuições e valendo-se de suas experiências, traz uma contribuição de valor incalculável para a compreensão da história recente da propaganda brasileira.

Período muito discutido, mas pouco documentado de maneira organizada e didática. O Luiz Lara e o Marcello Serpa fazem isso com maestria.

Entendo que seus livros sejam complementares, ainda que narrem períodos similares. As diferenças das suas personalidades, vocações, relacionamentos e papéis na publicidade permitem que conheçamos os caminhos diversos que o negócio percorreu nas últimas décadas para chegar ao que é hoje.

Os dois começaram muito jovens a se impor desafios e a superá-los com obstinação. Quando falo jovens, falo de jovens mesmo. Marcello veio trabalhar comigo na DPZ-Rio com 24 anos, aos 31 era sócio da BBDO; quando formamos a DLS, Lara tinha 25 anos, com 39 era sócio da TBWA.

Talentosos, sim, e muito, mas também trabalhadores incansáveis. Lembro-me da ocasião em que tínhamos de apresentar a campanha de lançamento de uma marca da Souza Cruz e o Marcello não podia ficar na agência. Sua mulher ia viajar e ele precisava tomar conta da filha, ainda bebê. Mas que eu não me preocupasse.
Como assim? Passei a noite pensando numa desculpa para transferir a apresentação. Na manhã seguinte, ele me aparece com uma série de anúncios magnífica, já fotografada e com os layouts impecavelmente montados. Sempre bom lembrar que não havia computadores, era tudo na mão.

Criou, fotografou e montou os anúncios com a Fabiana a tiracolo, entre uma mamadeira e outra. Impressionante. O entusiasmo e o otimismo do Lara, nada conseguia conter, nem mesmo as mais ameaçadoras evidências.

Em março de 1990, recebemos um briefing da construtora Kauffmann, que previa o uso de uma verba de 500.000 dólares (à época só era possível pensar em dólar, tamanha a inflação).

Campanha criada, plano de mídia feito, a apresentação foi marcada para o dia 15. Estava anunciada para aquela tarde uma coletiva da, então, ministra, Zélia Cardoso de Mello. O Brasil parava para saber o que Fernando Collor ia fazer com o nosso dinheiro.

Menos o Lara, que não desistia nunca, e convenceu o cliente a manter a reunião. Quando vi e ouvi que não haveria mais dinheiro nenhum circulando no país, a não ser uns trocados, liguei para a sede do cliente, pedindo para falar com o Lara.

Atenção: não havia celular. A telefonista foi e voltou várias vezes, dizendo que ele não podia atender porque estava em reunião. Tanto insisti que me atendeu.

Só então, soube o que aconteceu, e voltou para a agência para recomeçarmos tudo do zero. Enfim, o Lara e o Marcello sempre foram dois apaixonados pelo que fazem. É essa paixão que está ricamente registrada em seus livros.

Stalimir Vieira é diretor da Base de Marketing
stalimircom@gmail.com