Qual humanidade queremos preservar enquanto tudo se transforma

Nos primeiros dias do festival em Austin, a inteligência artificial domina as conversas, mas o que aparece com mais força é uma reflexão sobre confiança, liderança e o papel humano em um mundo cada vez mais tecnológico

Austin continua sendo um lugar curioso para observar o futuro.

Se nos últimos anos a pergunta que orientava o SXSW era qual tecnologia iria transformar os negócios, em 2026 a sensação é outra. A pergunta parece ter mudado. Qual humanidade queremos preservar enquanto tudo se transforma?

Essa percepção começa a aparecer logo nos primeiros debates sobre inteligência artificial, presente em praticamente todas as mesas do evento e atravessando discussões sobre mídia, criatividade, trabalho, creators, liderança e economia digital.

Ainda assim, o que mais chama atenção não é apenas o avanço da tecnologia. É o esforço coletivo para compreender o impacto humano dessa transformação.

Antes de falar das ideias que mais marcaram essas primeiras sessões, vale compartilhar uma experiência comum entre quem está no SXSW. A dificuldade de escolher as palestras.

O evento continua sendo um festival de abundância. São inúmeras trilhas, conversas e encontros acontecendo ao mesmo tempo. Muitas vezes, algumas das sessões mais interessantes ocorrem exatamente no mesmo horário, obrigando cada participante a fazer sua própria curadoria.

Curiosamente, essa sensação dialoga com um dos aprendizados que aparecem nas próprias discussões do festival. Em um mundo de excesso de informação, escolher realmente se tornou uma competência estratégica.

Tecnologia com olhar humano

Uma conversa que reforçou essa reflexão foi a participação de Rana el Kaliouby, cientista e empreendedora conhecida por seu trabalho em inteligência emocional aplicada à tecnologia.

Ela lembrou algo que parece óbvio, mas nem sempre é considerado no entusiasmo em torno da inteligência artificial. Apesar de todos os avanços recentes, a IA ainda entende muito pouco da comunicação humana. Grande parte das nossas interações acontece em sinais sutis. Expressões faciais, entonação, linguagem corporal e nuances emocionais. Elementos que continuam difíceis de traduzir completamente em sistemas algorítmicos.

A reflexão não era um alerta contra a tecnologia, mas um convite para pensar em um futuro em que a inteligência artificial amplie capacidades humanas sem reduzir a experiência humana ao que pode ser facilmente mensurado.

Liderança em tempos de transformação

Essa discussão sobre tecnologia e humanidade também apareceu em outra conversa marcante do evento, no diálogo entre Brené Brown e Adam Grant. Os dois falaram sobre liderança em um momento de profundas transformações sociais e tecnológicas e abordaram um tema cada vez mais presente nas organizações, o impacto do narcisismo na liderança.

Segundo eles, ambientes em que líderes priorizam controle ou autoridade acabam reduzindo a capacidade de aprendizado coletivo e inovação. Já culturas que valorizam curiosidade, debate real e abertura ao diálogo tendem a formar times mais criativos e resilientes.

Da tendência à convergência

Outra reflexão interessante surgiu em uma sessão sobre o futuro dos relatórios de tendências.

Talvez estejamos entrando em uma nova fase de análise do futuro. Em vez de identificar tendências isoladas, o desafio passa a ser compreender convergências, momentos em que tecnologia, comportamento, economia e cultura começam a evoluir juntos, acelerando mudanças estruturais.

Isso ajuda a explicar por que tantos debates no SXSW parecem conectados entre si.

A Inteligência artificial aparece junto da criatividade, tecnologia aparece junto da ética e cultura digital aparece junto da economia. Nada mais acontece isoladamente.

Criadores em um mundo saturado de conteúdo

Até mesmo nas discussões sobre a economia dos criadores, um tema aparentemente mais tático, a conversa acaba voltando para identidade e clareza na mensagem. Em uma sessão dedicada a criadores digitais, especialistas destacaram algo que parece simples, mas se tornou cada vez mais raro. Ter uma assinatura clara.

Em um ambiente saturado por conteúdo, automação e volume, destacar-se não significa produzir mais. Significa comunicar rapidamente uma ideia única e reconhecível.

Confiança muda tudo

Se existe um fio invisível conectando muitas das conversas do SXSW até aqui, talvez ele seja confiança. Esse tema aparece em diferentes camadas do evento. Confiança nas informações, nas plataformas, nas lideranças, na tecnologia e também nos criadores.

Em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos e inteligência artificial, a capacidade de gerar credibilidade e manter relações humanas genuínas tende a se tornar um dos ativos mais valiosos. Essa discussão apareceu em uma palestra de Imran Ahmed, fundador do Center for Countering Digital Hate, ao falar sobre como a dinâmica das plataformas digitais pode amplificar desinformação e fragilizar o debate público.

O papel particular do SXSW

Talvez por isso o SXSW continue sendo um evento tão particular. Mais do que apresentar novas tecnologias, o festival funciona como um espaço de interpretação do futuro. Um lugar onde tecnologia, cultura, comportamento e negócios se encontram para tentar entender para onde o mundo está indo.

Historicamente, o SXSW sempre teve essa característica de capturar sinais culturais antes que eles se tornem óbvios. Nesses primeiros dias de 2026, vimos que a tecnologia continua avançando em velocidade impressionante, mas cada vez mais a discussão retorna para aquilo que nenhuma máquina substitui completamente. A humanidade, a confiança, a criatividade e a conexão.

Ainda há três dias de SXSW pela frente e outras conversas importantes certamente vão surgir, mas nossa leitura inicial é de que, em um mundo cada vez mais tecnológico, talvez o grande desafio não seja acompanhar a velocidade das máquinas. Talvez seja preservar aquilo que nos torna humanos.

Brenda Maia é CEO Eagle Agência