Que governança queremos?
A história mostra que modelos baseados na força tendem a produzir resultados frágeis
Este início de 2026 está sendo marcado por um episódio que provoca perplexidade na comunidade internacional: a ação unilateral do governo dos Estados Unidos contra a Venezuela, culminando na captura de seu presidente sob a alegação de envolvimento com o narcotráfico.
Ainda que o governo de Nicolás Maduro seja amplamente criticado por práticas autoritárias, eleições questionáveis e violações de direitos humanos, a intervenção direta de uma potência estrangeira, sem respaldo jurídico internacional claro, reacende um debate incômodo: até que ponto fins supostamente “justos” legitimam meios eticamente duvidosos?
Esse episódio extrapola a esfera geopolítica e nos conduz a uma reflexão mais ampla sobre ética, poder e governança — não apenas entre Estados, mas também no mundo corporativo.
Durante décadas, o modelo de gestão predominante foi o do líder autoritário, centralizador, que decidia sozinho e exigia obediência irrestrita.
“Manda quem pode, obedece quem tem juízo” era mais do que um ditado popular; era um princípio organizacional. Com a evolução social, cultural e econômica, esse paradigma passou a ser questionado.
Sob um capitalismo consciente e uma cultura ESG, empresas perceberam que ambientes autoritários sufocam a inovação, desestimulam talentos e produzem resultados insustentáveis no longo prazo.
Emergiu, então, uma visão mais moderna de liderança: CEOs mais sensíveis e acessíveis, capazes de ouvir, dialogar e tomar decisões de forma ponderada e compartilhada, equilibrando resultados com responsabilidade social, diversidade e transparência.
A governança corporativa passou a valorizar ética, transparência, compliance e participação. No entanto, os sinais recentes do cenário global sugerem uma possível inflexão.
Em tempos de crise, medo e polarização, discursos simplificadores e líderes de perfil forte e autoritário, muitas vezes intolerantes ao contraditório, voltam a ganhar espaço.
A promessa de decisões rápidas, de “ordem” e de eficácia imediata seduz sociedades e organizações cansadas da complexidade do diálogo e da construção coletiva.
O risco desse movimento é alto. Lideranças autoritárias tendem a confundir firmeza com arbitrariedade, eficiência com imposição.
No ambiente corporativo, isso pode gerar culturas tóxicas, evasão de talentos, decisões míopes e escândalos éticos. Há um alto risco embutido nesse tipo de liderança, a ser considerado pelo conselho e pela alta administração das empresas conscientes.
Na política internacional, pode significar ainda o enfraquecimento de instituições multilaterais, do direito internacional e da confiança entre nações.
A pergunta central, portanto, não é apenas que tipo de líder é mais “forte”, mas que tipo de governança é verdadeiramente eficaz e sustentável.
Autoridade não precisa ser sinônimo de autoritarismo. Liderar não é silenciar vozes, mas integrá-las.
A história — tanto das nações quanto das empresas — mostra que modelos baseados exclusivamente na força tendem a produzir resultados frágeis e conflitos duradouros.
Estamos diante de um dilema civilizatório. Optar por uma governança ética, transparente e participativa pode ser uma decisão vista pelo mercado e por stakeholders como uma atitude frágil e até mesmo ingênua, perante concorrentes de métodos mais agressivos.
Mas é justamente essa escolha que sustenta sociedades mais justas, empresas mais inovadoras e relações internacionais mais estáveis.
Se os tempos atuais parecem flertar com um retrocesso humanitário, cabe a líderes, cidadãos e organizações decidir se aceitarão esse caminho ou se reafirmarão valores que custaram décadas para serem construídos.
No fim, a pergunta permanece aberta — e urgente: que governança queremos para o nosso futuro?
Alexis Thuller Pagliarini é sócio-fundador da ESG4
alexis@criativista.com.br